Home arrow Edições arrow Edição nº14 arrow A Cultura como Objecto de Controlo Turístico
A Cultura como Objecto de Controlo Turístico Versão para impressão E-mail
Autor: Figueiredo Santos   
01-Abr-2008
Índice
A Cultura como Objecto de Controlo Turístico
1. Estruturação das representações turístico-culturais
2. Turismo cultural e formas de apropriação identitária
2.1. O Turismo cultural como apropriação nostálgica da cultura
2.2. O turismo cultural como apropriação sacralizadora da cultura
2.3. O turismo cultural como conversor da objectivação da cultura
2.4. Turismo cultural como promotor da encenação da cultura
2.5. A mercantilização turística da cultura
Considerações finais
Bibliografia

2.5. A mercantilização turística da cultura

Se é válida a hipótese de que o polissémico conceito de turismo cultural supõe ainda da conversão selectiva de determinadas práticas turísticas numa forma de produção cultural alinhada pela perspectiva adorniana[1], então ele bem pode ser o manto conceptual sob o qual se abriga o fechamento e institucionalização da cultura como recurso a um consumo instrumental.

Nesta perspectiva, o turismo apropria-se da cultura convertendo-a numa mercadoria-ritual espectacular, banal, passiva, ficcional e superficial (Greenwood, 1992; Patin, 1999). É o que se depreende da argumentação de que, com o turismo cultural, fica problematizada a vida das populações colocadas na posição de “oferta turística”, na medida em que a identidade se torna um recurso submisso ao consumo do Outro. Num cenário atolado de preservação artificial das culturas consumidas como experiência turística, património, história, memória, comportamentos, rotinas transfiguram-se como capitais de rentabilização. A etnicidade converte-se um recurso de exploração, numa narrativa problematizadora da “análise do trabalho ideológico, da invenção de tradições e da construção de comunidades imaginadas [que] passa por ter em conta os papéis distintos e os interesses na reprodução das estruturas de significação e legitimação das regiões” (Mendes, 1996: 129), a coberto de um trabalho continuado de mediação cultural.

Os símbolos representativos da identidade, ao serem sorvidos pelo marketing[2], remetem as formas de auto-realização dos indivíduos para zonas em que a sua existência deixa de ser marcada por opções internas, por contraponto a “escolhas” forçadas.

A este respeito, Jeudy fala mesmo de “prisão patrimonial” em alusão aos muros erguidos no empreendimento de cristalização do tempo, correndo-se o risco de matar o presente: “O dever da memória ofereceu uma força patética ao grande décor dos santuários da restauração do passado […] que incita a reescrever infindavelmente a história” (Jeudy, 2003 : 137-138).Porque a história acaba no presente, deduz-se a convicção da sua estabilização. Mas é aí que, segundo Esperança, radica a ilusão, porquanto “esse sentido já nos foi confiscado. Certo tipo de paranóia patrimonial não anda longe de se configurar como uma neurose de um sujeito colectivo que só se sente bem habitando o cemitério e continuando a construir jazigos” (Esperança, 2005: 108), qual acto de aniquilação dos espaço criativos, espécie de enclave de um processo irremediável de museologização do mundo.

Mas a análise sociológica controverte-se quanto aos seus impactos. Se estas críticas alinham pela ideia de que a intermediação turístico-cultural, associada ao oculocentrismo na cultura moderna, implica o aprisionamento de espaços convencionados como culturais, já autores como Boissevain, (1996) abraçam um pensamento diverso. Mesmo analisando o consumo turístico-cultural numa lógica meramente mercantil e consumista, dele fazem depender o desenvolvimento e a revitalização de identidades culturais, a redescoberta das tradições, a autoconsciência local face aos visitantes, a revitalização do sentido identitario, a protecção das “back regions”, o desenvolvimento económico de regiões em crise.


[1] Vide Adorno, T. W. e Horkheimer, M. (1979, or. 1947), Dialectic of Enlightenment. London: Verso.

[2] Que se esforça por identificar o indizível, por estimular e satisfazer as necessidades dos indivíduos aglutinando-os em grupos de identificação escalar, orientada para a existência da indústria turística. Essa capitalização das “necessidades” rola, segundo Eduardo Esperança, em torno de estilizações de vida. “As empresas que operam as sondagens e estudos de mercado fazem-no em volta de um conceito nuclear que é o de “estilo-de-vida” (lifestyle) que é constituído em múltiplos padrões, por sua vez repartidos em sectores. O indivíduo há-de caber sempre num desses sectores, mesmo que o seu “estilo-de-vida” seja demasiado colorido ou desviado dos padrões mais comuns” (Esperança, 2005: 303).



 
Adicionar artigo a:Estes ícones permitem adicionar o presente artigo a redes de "social bookmarking".
  • slashdot
  • del.icio.us
  • technorati
  • digg
  • Furl
  • YahooMyWeb
  • Reddit
  • Blinklist
  • Fark
  • Simpy
  • Spurl
  • NewsVine