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A Cultura como Objecto de Controlo Turístico Versão para impressão E-mail
Autor: Figueiredo Santos   
01-Abr-2008
Índice
A Cultura como Objecto de Controlo Turístico
1. Estruturação das representações turístico-culturais
2. Turismo cultural e formas de apropriação identitária
2.1. O Turismo cultural como apropriação nostálgica da cultura
2.2. O turismo cultural como apropriação sacralizadora da cultura
2.3. O turismo cultural como conversor da objectivação da cultura
2.4. Turismo cultural como promotor da encenação da cultura
2.5. A mercantilização turística da cultura
Considerações finais
Bibliografia

2.2. O turismo cultural como apropriação sacralizadora da cultura

Uma outra figura recorrente de apropriação da cultura é a que credita potencialidades a esta estilização turística para funcionar como moderno operador de conversão do profano em sagrado.

Vista desta janela, a experiência turística torna-se uma questão sagrada, uma forma neo de peregrinação secular, um ritual pelo qual os turistas homenageiam as atracções e superam as descontinuidades da modernidade, incorporando os seus fragmentos sob a forma de experiência unificada.

Nessa linha, autores como Graburn, trabalham a experiência moderna como pêndulo entre o tempo profano e o sagrado, tomando o primeiro como o tempo ordinário da vida quotidiana e o segundo como extraordinário, na equivalência do turismo a um repositório moderno da dimensão peregrina. O autor convoca a recuperação da ideia de um círculo virtuoso, ao referir que “o decurso do ano está escalonado por uma sucessão de festas, cada uma das quais representa uma mudança temporal da ordem de existência que poderíamos designar normal/profano, para passar à ordem anormal/sagrado e volta a recomeçar” (Graburn, 1989:51), e infere do modelo que “as nossas vidas, a sagrada/extraordinária/turística, e a profana/laboral/caseira alternam-se no caso da gente comum, e estão escalonadas por rituais e cerimónias, como acontece com o começo e o final da nossa vida” (Idem, 52).

Numa espécie de “banalização antropológica do turismo como questão sagrada e uma repetição inoportuna do arquétipo da viagem” (Frow, 1997: 13), esta análise oculta o facto dos indivíduos só poderem libertar-se do trabalho quotidiano através de um modelo de produção adequado à satisfação dessas aspirações, pelo que esta visão sacralizadora do turismo faz tábua rasa das condições sociais de produção de tempo “livre”, levando a experiência turística na conta de um processo a-histórico. Trata-se de uma perspectiva que, ao admitir o turismo cultural como conversor da cultura numa espécie de sacramento com as suas liturgias espaciais específicas e os seus templos, mais não faz que inscrevê-lo numa nova versão de um outro regresso ao religioso, como se a modernidade não tivesse imprimido a descontextualização de todas estas figurações[1].


[1] A sociedade tradicional desconhecia o lazer e o turismo e, mesmo na contemporaneidade, são muitos os países que ainda não realizaram as condições necessárias à produção do seu take off, ou seja, o seu sentido de “mundanidade” que “se articula no conceito de cosmopolitismo” estabelecido na comunicação, que aponta para a constituição de um mundo enquanto “público” de cidadãos e “que estabelece uma esfera de autonomia privada, em que cada qual deve procurar a sua «felicidade» por aquele caminho que lhe pareça útil.” (Habermas, 1984: 130-131).




 
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