Home arrow Edições arrow Edição nº3 arrow Cultura, Media e Espaço - A instalação da experiência e das artes
Cultura, Media e Espaço - A instalação da experiência e das artes Versão para impressão E-mail
Autor: Maria Teresa Cruz   
02-Abr-2007
Índice
Cultura, Media e Espaço - A instalação da experiência e das artes
Espaço e Media
Espaço, ciberespaço e espaço misto
A centralidade da arquitectura e do design
Arte e espaço. Da instalação

Arte e espaço. Da instalação

Acolhida com maior ou menor entusiasmo pelo mundo da arte e pelo discurso da crítica, a injunção entre arte e técnica adquire hoje uma visibilidade porventura exacerbada, nomeadamente na proliferação de novas noções, tais como «artes do computador», «artes digitais», «ciberarte», ou simplesmente «media art». Apesar de terem já entrado nos museus e nos géneros artísticos instituídos, media e práticas anteriores (como a fotografia, o filme e o video), parece ter sido necessário esperar pelo introdução do computador na nossa cultura para que a categoria de «artes tecnológicas» emergisse e, com ela, a discussão mais ou menos aprofundada acerca da pretensão quase refundadora desta nova injunção entre arte e técnica. Aparentemente, só a introdução do computador (enquanto meta-medium e prefiguração de um hiperespaço) pode de facto fazer culminar alguns debates latentes ao longo de toda a arte moderna: o debate acerca da relação da arte com os meios, o debate acerca da relação entre arte e espaço e, também, consequentemente, o debate acerca do próprio espaço da arte.

A penetração decisiva da cultura moderna pela técnica e a emergência de uma «indústria da cultura» tinham já obrigado, como se sabe, a um questionamento igualmente decisivo da compreensão estética da arte e, sobretudo, como bem assinala Benjamain, a um questionamento da forma de presença da obra, ou do que designou também por «aura». O que o discurso dominante parece ter retido destes questionamentos é o sentimento de um recuo ou de uma perda de definição e de influência global do espaço da arte nessa nova economia cultural, alimentada porém quotidianamente por um simulacro de experiência estética e de belas formas. A arte sobreviveria assim, menos como presença do que como um espaço puramente instituído, onde o homem e o mundo não encontrariam já essencialmente abrigo, antes necessitando a própria arte de muros artificiais e protectores (os do museu). Sabemos quanta paixão e ressentimento desperta este debate, explanado em teorias da arte quase conspirativas, que vêm na sobrevivência circunscrita da arte a reminiscência ameaçada de uma autêntica relação poética com o mundo, um reino de arbitrariedade artificialmente sustentado por um juízo interessado ou, ainda, uma espécie de obstáculo a um verdadeiro e libertador devir outro da arte. Apesar dos exercícios transfiguradores ou desfiguradores a que se entregou a arte moderna e contemporânea, apesar da mobilização dos mais diversos meios, e apesar ainda das utopias vanguardistas de uma total fusão da arte com a vida, a arte surge assim a muitos como um espaço acantonado, por mais elásticas que aparentem ser as suas fronteiras. Daí que o debate em torno da arte do século XX seja em muito um debate sobre o espaço da arte, aliás obsessivamente fixado na ideia de fronteira.

Há assim alguma novidade na forma como a cultura tecnológica de hoje parece obrigar a redifinir os termos deste debate. Ao contrário do que possa sugerir a designação de «media art» tão frequentemente utilizada a respeito das artes tecnológicas, a relação das artes com as tecnologias da informação representa menos a introdução da arte a novos meios, ou a um novo meio (o computador), com o habitual questionamento se também isto caberá ainda dentro das fronteiras da arte, do que a introdução da arte a uma nova concepção de espaço e a um novo entendimento da relação entre espaço e media, que aqui procurei indicar. Em vez do discurso mais ou menos ansioso a respeito das fronteiras da arte, aquilo a que assistimos hoje é uma confiança aparentemente refrescada numa expansão da arte, que não é no entanto fundada na utopia da sua dissolução. Transparece de facto, neste discurso, uma espécie de confiança renovada senão mesmo eufórica nas possibilidades criativas do homem contemporâneo, na actividade poética e na sua relação com uma inesgotável vida das formas, sem vestígios de qualquer cansaço histórico ou sentimento de esgotamento. A inovação não é já aqui tarefa histórica em tensão com o arquivo da tradição, mas possibilidade quase infindável de variação que emana do tipo de controlo e plasticidade da gramaticalização digital e, aliás, da espacialização e disponibilização do próprio arquivo histórico que ela permite
.

Não se trata pois meramente de dotar a arte de novos meios e de novos suportes mas sim de a introduzir a um medium que se converte, por inerência, em espaço de todas as operações. A questão não é pois meramente instrumental (poderá a arte fazes uso destes meios?) mas sim, de imediato, poderá a arte habitar este espaço, composto por bases de dados, programas e metaprogramas, códigos, algoritmos e protocolos de vária ordem, e ainda por interfaces que cumprem por si mesmas a tarefa de fornecer manifestação, aparência estética e fruição a esse universo. Apesar destas compreensíveis interrogações, o espaço cibernético parece ser, por excelência, um espaço que nos convida a habitar poeticamente, na medida em que tudo se torna aí radicalmente plástico, reconfigurável e recomponível: cada forma é susceptível de ser dramaticamente investida e desfigurada (variada, hibridizada, etc.. ), mas também modelizada até à mais radical mimesis e perfeição, e tudo isto em sucessivas e momentâneas cristalizações, no jogo permitido pela relação entre virtual e actual. É por isso que nas artes digitais parece poder retornar todo o apolíneo, mas também todo o dionisíaco, como se o espaço cibernético fosse finalmente o grande espaço laboratorial da forma, permitindo o seu investimento por todo o tipo de forças, sem dissoluções nem eternizações.

É pois grande a tentação de pensar o ciberespaço enquanto espaço poético, apesar de ser mais geralmente caracterizado como espaço de controlo. Contradição ou tensão essencial, através da qual muito do que nos é ainda enigmático na nossa época, possivelmente se revelará. Para o que aqui se trata de pensar, sublinho apenas o quanto o medium das tecnologias digitais se torna em si mesmo meio ou espaço plástico de acolhimento, convocando quase naturalmente a arte para o seu seio, como desafio para o habitar. É nessa medida que esta arte nos parece ser sempre uma arte do computador, uma arte que habita no seu interior, aí baseada («computer based» ou «media based») e nesse sentido de facto indissociável dos meios, isto é, «media art». É também por isso que as artes digitais, no seu conjunto e independentemente das suas especialidades (software art, generative art, game art, net art, etc...) parecem ser sempre, no seu fundamento, artes próximas do design e da arquitectura
(seja a nível de programação e da produção de aplicações, seja a nível das interfaces e das formas de display que introduz), não sem algum juízo viciado a respeito dos seus protagonistas, muitas vezes considerados, em confronto com a figura do artista contemporâneo, como sendo puramente designers ou pretensos arquitectos, auxiliados por engenheiros. Uma equipa realmente consentânea com as tarefas de instalação e de construção com que esta arte está por inerência comprometida, pois que se trata de habitar um novo espaço, mais do que simplesmente fazer uso de um novo medium.

Não raras vezes, e numa certa tentativa de contradizer a sua condição «media based», as artes tecnológicas e as artes digitais transferem-se para o espaço físico ou para um espaço que se torna assim misto e ambivalente: invadem-no de projecções, e sistemas de som, disseminam sensores e ligações, escondem a máquina, escamoteiam o ecrã, e fazem entrada nos museus. Em suma, transferem para um espaço e um tipo de apresentação que nos é mais familiar a sua principal operação – a da instalação. O mesmo sucedeu aliás com a arte vídeo, que nos habitou a uma verdadeira arquitectura de câmaras escuras sobreposta à própria estrutura dos espaços das galerias e dos museus.


Na verdade, há muito que a ideia de instalação nos é afinal familiar, tendo-se mesmo tornado, desde há várias décadas, uma categoria central, senão mesmo dominante, na arte contemporânea, através de obras das mais diversas proveniências e sem qualquer relação necessária com as artes tecnológicas. De facto, desde que se iniciou na arte moderna uma estratégia de apropriação, assemblage e montagem de objectos, a obra de arte adquiriu uma presença crescentemente tectónica ou mesmo arquitectónica, em que a relação ao espaço e ao contexto se tornou central à obra. Por outras vias ainda, do «specific object» e da obra «site specific» ao minimalismo e às formas de instalação mais contemporâneas, a arte trabalhou e pensou centralmente a questão do espaço mostrando plena consciência do quanto isso transformava, por sua vez, a experiência da obra. Convidados que somos a percorrê-la no espaço, fazendo jogar diversas perspectivas, ou mesmo a habitá-la, a obra parece não querer ser coisa, transformando-se mais propriamente em espaço poético. Na casa que é o museu, as obras de instalação forçam assim a que um outro espaço se abra, sendo nestes casos idealmente assimiláveis a essa abertura ou a esse seu espaço próprio, e não aos objectos mais ou menos indiferentes ou mais ou menos alegóricos que as compõem. A instalação é pois, ela mesma, uma espécie de casa ou de alojamento para a arte ou para uma experiência poética do mundo; isto é, a obra é uma forma de habitação do mundo. E o artista, uma espécie de arquitecto, no sentido em que cuida de prover este alojamento ou habitação.


É verdade que todo o discurso estético moderno esteve em muito centrado na afirmação de um espaço para a arte, extraindo-a do seu regime religioso e cultual, para a trazer para um espaço autónomo de visibilidade, concretizado no museu ou no acolhimento supostamente neutro do «cubo branco». Esta extracção das obras do seu espaço original (ou aurático) e a sua reinserção num espaço onde vigora um regime estético e expositivo exige uma operação de «instalação», da qual o museu, os seus curadores e funcionários são os principais especialistas. Hoje, a tarefa da instalação é porém reclamada pelos próprios artistas, fazendo suspeitar que algo de essencial se joga na passagem da instalação da arte para a arte da instalação. Instalar significa: «Assentar», «Estabelecer», «Colocar» num espaço dado, mas pode significar também, «Instaurar», «Inaugurar», «Abrir», significados que encontramos frequentemente amalgamados num Dicionário, mas que contêm na verdade uma importante ambivalência. No seu sentido inaugural ou instaurador, o acto de instalar implica uma dimensão primordial e fundadora que corresponde à própria abertura do espaço onde algo há-de poder vir à presença. Assim, dizer que uma obra de arte se instala, não significa apenas dizer que ela entra em relação com o espaço em que é colocada, mas sim que funda ou abre ela mesma o espaço em que a sua existência se torna possível, isto é, o espaço poético. Na arte da instalação, instalar é a operação que equivale e o nome que designa o próprio acto de produção da obra, o gesto poético em si mesmo. Produzir uma instalação é assim ao mesmo tempo produzir o espaço em que a obra existe como obra. Não se trata pois de reclamar um lugar no espaço da arte, mas da consciência de que a existência da obra está ligada à possibilidade de ela mesma instaurar um espaço poético.


O problema das fronteiras da arte coloca-se nesta perspectiva de modo distinto. Também na arte da instalação elas estão continuamente em causa ou em constituição, na medida em que o espaço da arte é obrigado a acercar-se desse aí onde está a obra, ou onde seja que se abre o espaço poético, dentro ou fora das portas do museu, no espaço público ou num qualquer ponto distante do planeta. Não se trata porém meramente de desafiar as fronteiras instituídas ou do desejo de habitar numa heróica marginalidade. Na verdade, e de novo neste perspectiva, não há obras de arte marginais, no sentido em que cada obra é sempre a tentativa de fazer irradiar um espaço poético, a partir do seu próprio âmago. Cada obra é o cerne dessa abertura e dessa irradiação e não um mero posicionamento relativamente ao espaço instituído da arte. E quando essa irradiação nos atinge e somos incluídos nesse espaço poético, a história encarrega-se de a tornar também, mais cedo ou mais tarde, no centro de todas as atenções.


Podemos talvez dizer, para finalizar, que nesta missão de fazer irradiar um espaço poético a arte contemporânea da instalação resiste a todos os mapeamentos abstractos do espaço e a toda a topologia, dos quais provém precisamente o recorte de algo como um espaço institucional da arte, com os seus vectores, o seu centro e as suas margens, por mais móveis que sejam. De igual modo, resistiria também ao espaço técnico, cuja origem é a abstractização máxima da matematização, da geometrização e da reticularização. E, neste sentido, a arte contemporânea resistiria igualmente a uma proximidade relativamente às artes tecnológicas e mais especificamente ainda às artes digitais, sendo os seus respectivos circuitos efectivamente mais paralelos do que partilhados. Mas talvez a arte contemporânea seja mais do seu tempo do que os seus códigos às vezes parecem permitir. Talvez esteja mesmo mais próxima desse inexorável processo de espacialização da cultura que as mediações tecnológicas manifestam e que as artes tecnológicas claramente assumem. A diferença de discursos, de suportes e de meios não impede que vejamos nelas a mesma dominância de uma mesma operação, ou modo de fazer obra – a instalação. Na verdade, em toda a arte do nosso tempo parece estar presente uma consciência comum deste processo e da tarefa que à arte ainda cabe – a de nos fazer habitar o mundo, a de o fazer nosso, por maior estranheza que nos cause ou por mais desabrigados que nos faça sentir.



 
Adicionar artigo a:Estes ícones permitem adicionar o presente artigo a redes de "social bookmarking".
  • slashdot
  • del.icio.us
  • technorati
  • digg
  • Furl
  • YahooMyWeb
  • Reddit
  • Blinklist
  • Fark
  • Simpy
  • Spurl
  • NewsVine