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Cultura, Media e Espaço - A instalação da experiência e das artes Versão para impressão E-mail
Autor: Maria Teresa Cruz   
02-Abr-2007
Índice
Cultura, Media e Espaço - A instalação da experiência e das artes
Espaço e Media
Espaço, ciberespaço e espaço misto
A centralidade da arquitectura e do design
Arte e espaço. Da instalação

A centralidade da arquitectura e do design

A vida contemporânea, e em especial a vida urbana, está há muito centrada em operações de espaço. Operações de reestruturação do espaço físico, tornadas imprescindíveis pelo extraordinário crescimento das nossas cidades, mas também operações de contracção e de expansão virtuais do espaço, resultantes do seu crescente atravessamento pelas telecomunicações e pelas redes de informação. Não surpreende pois que a arquitectura se torne, nos nossos dias, uma espécie de disciplina fundamental, cujo âmbito alguns descrevem como uma «espaciologia». Na era da sociedade e da economia globais, também a arquitectura se globaliza, de algum modo, não apenas pela criação de certos padrões mundializados, ao nível das grandes metrópoles (tais como shopping centers, aglomerados habitacionais, centros de negócios ou aeroportos), mas ainda pelo facto de não se poder alhear dessa infinidade de ligações e de «layers» informacionais que distendem os lugares num espaço global, de natureza fluida e dinâmica. Nos nossos dias, a arquitectura parece ter de ocupar-se não apenas da construção de edifícios (ou imóveis) e da sua relação com os lugares, mas também da mobilidade que marca a vida contemporânea e dos «não-lugares» por onde ela transita[1]. Na verdade, há muito que a arquitectura tradicional se confrontava já com problemas cada vez mais abstractos e amplos: não apenas como acomodar fisicamente pessoas, coisas e funcionalidades, mas também como incluir nos seus projectos, ritmos e fluxos (da vida urbana e do tráfego, por exemplo), riscos, previsões e hábitos comportamentais, etc.[2], isto é, elementos que são apenas informação, mas que influenciam profundamente a concepção de um dado espaço.

Hoje, as «possibilidades formais de relação entre informação e materialidade», abertas pelas novas tecnologias, fazem claramente emergir, como diz Mitchell, uma nova fase da arquitectura: «uma arquitectura da idade digital»:«Os edifícios eram antes desenhos materializados, mas são agora, crescentemente, informação digital materializada – desenhados com a ajuda de sistemas de design por computador, fabricados por meio de maquinaria digitalmente controlada, montados no local com a assistência de dispositivos de layout e posicionamento, e geralmente inseparáveis de fluxos de informação através de redes globais de computador»[3]. Por um lado, a costumização no âmbito da construção, as formas estranhas, irregulares e curvas (sugeridas por algumas ferramentas do design por computador) ou os painéis electrónicos que servem de pele a alguns dos edifícios das grandes metrópoles são sinais visíveis de uma arquitectura que, embora destinada ao mundo físico, é já tão «mista» quanto o espaço que o acolhe. Por outro lado, no âmbito do espaço virtual, tratando-se de tornar cada vez mais efectiva e tangível a nossa possibilidade de o habitarmos, assistimos a outras tantas formas de aliar tectónica e informação. É por isso que, na www construímos lugares (sites), organizamos mapas, desenhamos acessos, em suma fornecemos estrutura e design à informação e aos modos da sua apropriação. Para além das metáforas espaciais que invadem as interfaces, é pois aos próprios princípios da arquitectura e do design que a organização do ciberespaço apela, pois trata-se de abrigar nele a nossa experiência, permitindo que o território fluído e instável da informação se reúna à nossa volta como mundo dotado de forma, funcionalidade e sentido.

Vivemos pois um momento em que a arquitectura e o design mostram amplamente a enorme participação que têm na cultura tecnológica e, mais especificamente ainda, na sua era computacional. Se, por um lado, as tecnologias da informação trouxeram à arquitectura e ao design importantíssimas ferramentas de trabalho, nomeadamente no âmbito do software, é também verdade, por outro lado, que a evolução dos sistemas de informação (da sua gestão, à sua usabilidade e interactividade) é em muito devedora, não apenas dos progressos da engenharia electrónica e das ciências da informação, mas também de uma inteligência e de uma performatividade próprias à arquitectura e ao design. Eles são essenciais para articular virtual e actual, informação e forma, materialidade e imaterialidade. A sua participação está presente em todos os níveis, desde a mais subterrânea inscrição nas formas de organização da informação, à mais exuberante visibilidade nas fachadas e nas faces (desenhadas) de tudo o que nos rodeia, passando pelas inúmeras interfaces que nos permitem transitar entre espaço físico e espaço virtual. Do desenho dos circuitos electrónicos até à arquitectura da informação e ao design de interfaces, a arquitectura e o design são dois dos mais importantes pilares da edificação do ciberespaço. Podemos pensar neles como duas artes que emigraram, juntamente com a lógica e a matemática, para dentro do próprio objecto máquina, o qual, desde muito cedo, ajudaram também a exteriorizar e a individuar, através do design tecnológico e industrial.


Não surpreende pois que um vasto domínio de tarefas de organização e de gestão da informação sejam hoje comummente pensadas e designadas como tarefas de arquitectura[4] e de design, nomeadamente no que estas disciplinas têm também de comum entre si. Ambas são artes de projecto, que tomam em consideração funções e recursos, que planeiam, prevêem e calculam com vista à realização de objectivos, parecendo por isso estar numa subterrânea sintonia com a racionalidade moderna, que é desde sempre projectualista, sobretudo na sua dimensão tecnológica[5]. Este comprometimento com a realização e a realidade, que pendeu frequentemente como uma desconfiança estética e artística sobre a arquitectura e o design, foi sempre, ao mesmo tempo, a razão de uma especial autoridade destas artes, que perdiam em autonomia estética o que ganhavam em dimensão cultural, social e política ou em proximidade à vida. No célebre ensaio «A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica» já Benjamin anotara, no final, que em tempos de profundas transformações, a arquitectura é a forma de arte mais iluminante, pois deve sempre sobreviver e adaptar-se: «ao passo que muitas formas de arte surgiram e desapareceram» ao longo da história, a arquitectura «nunca parou». Na medida em que «a necessidade humana de um abrigo é duradoura», diz Benjamin, «a sua história é mais antiga do que qualquer outra arte», tal como é também singular a sua «capacidade de se actualizar»[6].

No caso da arquitectura, a certeza da sua permanência e proximidade com a vida é, na verdade, intuível para todos, pois ela faz intrinsecamente parte da nossa forma de estar no mundo, isto é, do nosso habitar. É também isso mesmo que o célebre ensaio de Heidegger, «Construir, habitar, pensar» (1951)[7] procura meditar. Habitar é o que propriamente nos define como humanos, o que define o nosso estar no mundo. Neste sentido, «não habitamos porque construímos, antes construímos e continuamos a construir na medida em que habitamos, isto é, enquanto habitantes que somos»[8]. Se a cultura tecnológica do computador coloca hoje de modo tão central o problema do espaço e da arquitectura é porque ela interroga talvez, de modo igualmente central, o estado desse nosso habitar que, dizia já Heidegger, parece estar ameaçado, de vários modos, por uma condição de desabrigo. Os progressos da construção (real ou virtual) serão porém de pouco auxílio, se for verdade que «é apenas quando podemos habitar que podemos então construir»[9]. É pois a nossa capacidade e a nossa forma de habitarmos o mundo que devemos interrogar numa era em que toda a experiência parece espacializar-se e apelar a uma arquitectónica geral ou mesmo a uma espécie de reinstalação do mundo.

É a partir de uma natureza mais íntima ou velada da arquitectura que Heidegger nos propõe que pensemos a condição do nosso habitar. No termo que designa a arte da construção («arquitectura») e também na própria noção de «tectónico» está inscrito o mesmo radical que encontramos na ideia de techne. A arquitectura é pois uma forma de arte em que a afinidade essencial entre arte e técnica ressoa mais vivamente do que em qualquer outra forma de arte. Essa afinidade antiga, que é da poiesis (produção) relembra-nos que construir é fazer advir algo, abrir espaço para ela, para a sua presença[10]. É nesta reciprocidade que Heidegger funda a convicção, expressa também em outros textos, de que é «enquanto poeta que o homem habita» a Terra[11]. A actividade tectónica da arquitectura cuida do nosso habitar, não apenas porque constrói ou edifica, mas porque ao fazê-lo produz os lugares que deixam o homem ser aquilo que é, isto é, aquele que habita: “....é por isso que as verdadeiras construções imprimem a sua marca sobre a habitação, devolvendo-a ao seu ser e dando uma morada a este ser”[12]. Curiosamente, o exemplo que Heidegger escolhe para dizer o que é um «genuíno edifício» é, não o de uma casa, mas o de uma ponte, isto é, uma construção/lugar que reúne espaços, pois habitar ou persistir entre as coisas é também atravessar os espaços «permanecendo constantemente entre coisas e lugares próximos e remotos», na medida em que «não estamos nunca apenas aqui, neste corpo encapsulado»[13]. Apesar de quase tudo estar ainda por acontecer, na época em que Heidegger escreveu este ensaio, as suas palavras parecem antecipar alguns aspectos centrais da cultura tecnológica da segunda metade do século XX.


Independentemente da especificidade filosófica destas indagações, também elas permitem pois sublinhar a relevância contemporânea das questões do espaço e, com elas, um certo protagonismo da arquitectura na cultura contemporânea. Esta relevância decorre, como vimos, de uma espacialização generalizada da experiência operada por uma racionalidade técnica que tende, através dos seus diversos media, a dispor inteiramente do meio em que a vida se realiza. Por isso, a ligação do tectónico e da técnica se expressa hoje com maior nitidez, dentro e fora dos contornos tradicionais da arquitectura. Como sugeria Benjamin, as outras formas de arte parecem menos instigadas a responder de imediato ou mesmo a sobreviver às radicais transformações da cultura causadas pela penetração da técnica, mas nem por isso deixam de nos dar sinais muito reveladores sobre o modo como habitamos o mundo. Mais do que isso, e tal como Heidegger não se cansou de fazer notar, a arte é em si mesma uma instância em que o próprio modo de ser técnico pode historicamente desvelar o seu sentido. A arte, que não apenas a arquitectura, é pois um lugar onde abrimos espaço para sermos aquilo que somos: os que habitam o mundo. Os seus sinais poderão parecer hoje demasiados dispersos ou estar dissolvidos no complacente discurso acerca da multiplicidade e diversidade da arte contemporânea mas, ainda assim, é possível detectar neles uma trama consistente que articula decisivamente, na nossa época, arte, técnica e espaço.



[1] «O discurso da arquitectura clássica era baseado no lugar, espaço, corpo, material, massa, gravidade,etc… O tecno-discurso da deslocação dissolveu as diferenciações e as fronteiras históricas. O discursp da arquitectura não-clássica é baseado na não-localização, nos sinais imateriais, nos sistemas dinâmicos, nos dados flutuantes etc…» (Weibel, Idem, p. 270).

[2] Cf. BENEDIKT, Michael L. Cityspace, Cyberspace, and The Spatiology of Information (1993), Introdução (http://www.utexas.edu/architecture/center/benedikt_articles/)

[3] MITCHELL, «Constructing an authentic Architecture of the Digital Age», p. 82.

[4] A expressão «arquitectura da informação foi cunhada no final dos anos 70 por Richard Saul Wurman no seu livro Information Architects, onde definia o arquitecto da informação como “ o indivíduo que organiza os padrões (..), cria a estrutura (...) da ciência da organização da informação” .

[5] Alguns dos mais ousados empreendimentos desta razão tecno-científica foram, nos nossos dias, precisamente pensados e implementados como projectos: o «Projecto Manhattan» (que desenvolveu a primeira arma nuclear); o «Projecto Solaris» (que concebeu o sistema de controlo para o Míssil Balístico Intercontinental); o «Projecto Apolo» (que implementou a ida do homem à Lua); ou, mais recentemente, o «Projecto Genoma Humano» (que visa mapear toda a informação genética do ser humano).

[6] BENJAMIN, Walter, «A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica», in Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Lisboa: Relógio d’Água, 1992, p. 109.

[7] HEIDEGGER, M., «Bâtir, Hbiter, Penser» (1951), in Essais et Conférences, Paris, Gallimard, 1958, pp. 170-193.

[8] HEIDEGGER, Idem, p. 175.

[9] Idem, p.191.

[10] Talvez por isso o próprio discurso teológico tenha escolhido a figura do «Grande Arquitecto» para falar de um Deus Criador e do seu acto de criação do mundo, o qual precede a criação do homem.

[11] Fragmento de uma poesia de Hölderlin («Dichterich wohnt der Mensch ...») longamente comentada num outro ensaio que o toma como título, «... L’Homme habite en poète...», in Op. Cit, pp. 224-245.

[12] HEIDEGGER, «Bâtir, Hbiter, Penser», Op. Cit., p.190.

[13] Cf. HEIDEGGER, Idem, p. 187-188.



 
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