Home arrow Edições arrow Edição nº3 arrow Cultura, Media e Espaço - A instalação da experiência e das artes
Cultura, Media e Espaço - A instalação da experiência e das artes Versão para impressão E-mail
Autor: Maria Teresa Cruz   
02-Abr-2007
Índice
Cultura, Media e Espaço - A instalação da experiência e das artes
Espaço e Media
Espaço, ciberespaço e espaço misto
A centralidade da arquitectura e do design
Arte e espaço. Da instalação

Espaço e Media

Este subterrâneo processo de espacialização da experiência inicia-se na verdade bem cedo na história da cultura humana e está em muito ligado ao processo do crescimento das suas mediações, em consequência da invenção dos primeiros gestos e meios, tanto simbólicos como técnicos. A preocupação primordial destas mediações e destes gestos é a relação com o meio circundante e a sua progressiva transformação desse meio em espaço habitável e dominável, conforme repetidamente nos tem dito a Antropologia. Nas palavras de Canguilhem: «A experiência é, em primeiro lugar, a função geral de todo o ser vivo, enquanto o seu o debate com o meio. O homem faz antes de mais experiência da actividade biológica através das suas relações de adaptação técnica ao meio ambiente, e esta técnica é heteropoiética, tomando como referência o exterior e recolhendo aí os seus meios ou os meios dos seus meios».[1] Esta curiosa ambivalência entre meio ambiente e meios da sua transformação e adaptação, indica precisamente a centralidade da relação entre cultura, espaço e medium, a qual estende a ligação primordial, e continuamente trabalhada, entre ser vivo e meio envolvente. O meio envolvente é ele próprio o medium no qual a vida humana tem que ser possível desde o seu primeiro momento. Todos os media subsequentes, crescentemente artificiais, são ainda media para que o ser humano prossiga a sua história, adaptando e reinventando o seu meio envolvente. Não surpreende pois que a história da cultura humana se possa em muito fazer através da história dos seus media e que estes explicitem crescentemente, nesse processo, o seu devir espaço. Da invenção dos primeiros instrumentos técnicos, e também do alfabeto e da escrita, até à invenção das actuais tecnologias da comunicação e da informação, os media expressam talvez, todos eles, a reinvenção do meio ambiente em espaço artificial de experiência.

A relação entre espaço e medium é pois central, não apenas pelas transformações radicais que introduzimos no nosso meio ambiente (a Terra), povoando-o de novas coisas, constituindo comunidades e edificando cidades, mas também porque esta nossa forma de vida faz crescer as mediações que nos distanciam, não apenas da terra, mas do próprio asfalto das cidades, fazendo com que, cada vez mais, uma parte importante das nossas experiências, reais e imaginárias, nos façam atravessar ou habitar, mesmo que momentaneamente, outros espaços, difíceis de determinar: lendo um livro, estando ao telefone, indo ao cinema ou vendo televisão, acedendo a uma rede de computadores, etc... A presença das mediações, que cresceu com as formas de desenvolvimento das nossas sociedades e da nossa cultura distanciou-nos pois da terra e ofereceu-nos o espaço (nomeadamente sideral, fazendo-nos literalmente viajar para além do planeta). Há pois uma afinidade essencial entre media e espaço, entre o crescimento das mediações e a problemática da espacialidade, como se toda a experiência, cada vez mais desenraizada da Terra, estivesse destinada a um crescente processo de artificialização que é também um processo de espacialização, isto é, de inclusão numa noção de espaço abstracta e categorial.

Não surpreende, por isso, que a teoria dos media seja hoje pródiga em alusões ao espaço em alguns dos seus conceitos centrais: espaço virtual, ciberespaço, espaço dos fluxos, sites e moradas electrónicas; ou ainda em operações como contracção do espaço, rizomatização do espaço, desterritorialização, deslocalização e nomadização; e também na descrição dos nossos gestos — navegar nas redes de informação, visitar espaços virtuais, entrar e sair de bases de dados. Na verdade, a linguagem já nos tinha há muito arrancado ao puro contacto directo com as coisas para nos lançar na geografia dos nomes, nas latitudes da escrita e da página impressa e no «espaço literário» (M. Blanchot), tal como a cultura visual nos lançou também no espaço perspectivo da proporção e do número, redesenhando a fenomenalidade do mundo. Nada dessa história se perdeu em virtude dos novos media ou do novo medium que é o computador. Pelo contrário, ele parece reuni-la por inteiro e fazê-la culminar nos ambientes hipertextuais e hipermedia, nas sofisticadas gráficas computacionais e interfaces imersivos e nas redes de informação a que acedemos através desse único medium. O computador, nas suas várias formas de presença, parece ser de facto o espaço onde todos os meios anteriores se reúnem numa espécie de hiperespaço de experiência, culminando pois um longo processo de espacialização da cultura, que acompanhou a história dos seus media.

Platão referia-se já à escrita como a colocação da vida numa espécie de quadro, o qual afastaria decisivamente a palavra da sua ligação à presença, à voz e também à memória e à rememoração, características de uma cultura oral, que habita necessariamente o tempo. A escrita iniciaria assim uma das inflexões mais decisivas no sentido da espacialização da cultura. Os seus quadros são antes de mais, na sua materialidade, o dos papiros, dos códices e dos livros, nos quais viemos a idealizar depois mundos literários. Com a modernidade, este espaço torna-se o de uma complexa «rede de discursos»[2] a que os media modernos vêm fornecer uma consistência crescentemente técnica, desde logo com o advento da imprensa e das práticas massificadas de escrita e de leitura a que ela deu lugar.

A afinidade da escrita com o espaço é na verdade bem mais antiga do que tudo isto e as suas raízes encontram-se, em última análise, na álgebra, na geometria e na invenção dos símbolos que as permitiram. Na origem da escrita alfabética está um conjunto de necessidades ligadas à astronomia, aos diagramas e aos símbolos geométricos e também à simbolização e notação do valor de troca. Para responder a estas necessidades foram sendo precisos símbolos crescentemente abstractos e afastados dos pictogramas ou ideogramas de que algumas das primeiras escritas se socorriam[3]. como representações de ideias ou de imagens simplificadas, dando assim lugar a um primeiro e rudimentar silabário que visava antes a representação dos sons e, depois, ao primeiro alfabeto fonético, que veio a revolucionar todo o pensamento e cultura até à imprensa de Gutenberg. Passando pela invenção do tipo móvel (existente na China desde o século VIII) e ainda pela invenção do papel, é todo um conjunto de elementos materiais e técnicos que se tona decisivo no desenvolvimento do medium da escrita alfabética e da sua álgebra simbólica, que também. Derrida descreve como um conjunto de “elementos abstractos e espaciais”[4].

A invenção da tipografia, diz por sua vez McLuhan, ao causar “a manipulação em grande escala de palavras no espaço deu vigor novo à tendência de utilizar a lógica e a dialética de maneira quantitativa”[5]. Esta tecnologização da palavra, que nos força a uma espacialização e algebrização do pensamento, corresponde assim a uma nova “geografia mental” a uma “tecnologização da consciência” ou a “um novo aparato mental” que Havelock designou como “abecedarium[6]. Neste sentido, dizem os autores de Memory Traces. A pre-history of Cyberspace “a literacia alfabética é em todos os aspectos tão abstracta como a literacia matemática ou aritmética”. Ou ainda, dizem os mesmos autores, “O código ASCII[7] é, para o mundo digital, o que o alfabeto é para a literacia”. A literacia representaria assim um compromisso em “habitar um regime mais elevado e extenso de abstracção sistemática, um espaço de constante abstração da experiência do mundo mais imediata, aquela que fazemos em primeira mão”[8].

Hoje, são muitos os que reconhecem plenamente esta caracterização da escrita como medium; mais ainda, são muitos os que vêm nela um dos momentos fundamentais da afinidade entre mediatização, espacialização e matematização, a mesma afinidade que está na base dos novos media e da produção de um ciberespaço. Cada medium tem certamente “propriedades particulares e incide sobre os nossos sentidos (...) de modo também particular”, diz McLuhan, mas, no seu conjunto, acrescenta, eles não são senão “uma variedade de formas espaciais”[9].

Na invenção da perspectiva plana do Renascimento, poderíamos encontrar um novo exemplo do que resumidamente encontrámos na escrita, e um exemplo ainda mais literal: a constituição de um espaço, fundado em leis matemáticas, que se instalaria agora para mediar, não a experiência da voz e da escuta, mas a experiência visual, fazendo-a ascender a um grau de elevada abstracção e sistematização. Inspirada na óptica do seu tempo, também a perspectiva procedeu a uma operação de tradução ou de abstractização da experiência (visual), constituindo-se então em dispositivo óptico e também em forma simbólica, conforme Panofsky celebremente estabeleceu na sua obra sobre a perspectiva plana do Renascimento[10]. Este novo espaço simbólico é o do «plano do quadro», no qual se projecta, segundo uma certa técnica de representação, «um conjunto espacial percebido»[11]. O De Pictura, de Alberti, é a este título inteiramente esclarecedor. Pintar em perspectiva é passar do mundo ao quadro — à topologia, à relação abstracta e à matematização.

Mas talvez o mais interessante seja constatar o quanto a perspectiva, apesar de praticamente ausente da arte de hoje, parece presente e relevante nos media modernos e contemporâneos (na fotografia, no cinema e também nas gráficas computacionais 3D, invadindo as mais sofisticadas interfaces das tecnologias de simulação, dos jogos de computador e dos sistemas de realidade virtual) Estes media modernos e contemporâneos procedem de facto, todos eles, por diversas formas, a uma automação da função da visão que se iniciou com o Renascimento, e esta, por sua vez, exige a “captura da identidade de objectos e de espaços individuais pelo registo de distâncias e formas”, como diz Lev Manovich[12]. Ou seja, a cultura visual moderna procede, toda ela, de uma abstractização generalizada da visão, que Lev Manovich pensa como um “mapeamento do espaço” e, ainda, como um “nominalismo visual”, na medida em que a função visual passa a ser nestes casos substituída por uma descrição puramente posicional, que nada tem de óptico.


Inicia-se assim uma “virtualização da óptica”[13] suportada hoje pelo carácter discreto e puramente numérico de cada um dos pontos das novas imagens digitais (os pixels). Também para Friedrich Kittler, a era algorítmica da imagem corresponde à ultrapassagem das leis da óptica pela “pura lógica algébrica”: «Não se trata pois de como os computadores simulam a percepção óptica, mas sim de como a iludem (…). Eles iludem o olho, (…) com a aparência de uma imagem quando, na verdade, o conjunto de pixels e a sua acessibilidade discreta possui antes a estrutura de um texto composto por letras soletráveis. Por isso, e só por isso, não constitui problema fazer conviver nos monitores dos computadores um modo textual e um modo gráfico»[14]. A modelação simbólica e visual do ciberespaço expressa assim hoje, com toda a clareza, a importância da relação entre espacialização, matematização e algebrização que tanto a escrita como a perspectiva primeiro explicitaram[15].



[1] CANGUILHEM, Georges, Connaissance de la Vie, Paris, Vrin, 1946, p. 23.

[2] Esta expressão pode traduzir a noção de “Aufschreibsystem” com que Friedrich Kittler se refere aos meios de organização do discurso, através de práticas de escrita e de leitura, que vão do alfabeto às linguagens de programação, passando pela própria literatura. Cf. KITTLER. Discourse networks 1800/1900, Stanford University Press, 1990 (Berlin, Brinkman & Brose, 1986).

[3] Darren TOFTS e Murray McKEICH, dizem, em Memory Traces. A pre-history of Cyberspace (G+B Arts International e Interface books, 1998), a respeito da origem dos símbolos da escrita, que os “os sistemas de escrita pictográficos e ideográficos são apenas uma instância mais espectacularda origem geométrica de todos os símbolos da escrita” (p. 47).

[4] DERRIDA, Dissemination. Translation, Annotation, Chicago, University of Chicago Press, 1981, p. 139.

[5] MCLUHAN. Op. Cit., p. 221.

[6] Citado por TOFTS e McKEICH, Op. Cit., p. 50.

[7] ASCII – American Standard Code for Information Interchange (Tabela de Representação Numérica de Caracteres).

[8] TOFTS e MCKEICH. Op. cit.,, p. 50.

[9] MCLUHAN. Op. Cit., p. 76.

[10] PANOFSKY. La Perspective Comme Forme Symbolique, Paris, Ed. Minuit, 1976.

[11] Segundo Panofsky há representação em perspective quando «a superfície é negada na sua materialidade e se vê reduzida a não ser mais do que um simples palno do quadro sobre o qual se projecta um conjunto espacial percebido através desse palno e integrando todos os objectos» (PANOFSKY, Op. Cit., p. 38).

[12] MANOVICH, “The Mapping of Space: Perspective, Radar, and 3-D Computer Graphics”, 1993 (http://www.manovich.net/).
Apesar desta origem ser em última análise comum, Manovich sublinha no entanto, em “Navigable Space” (http://www.manovich.net/DOCS/navigable_space.doc), que “a ontologia do espaço virtual definida pelo software é fundamentalmente agregativa, isto é composta por um conjunto de objectos sem um ponto de vista unificador”. Assim, ainda em «Navigable Sapce», conclui claramente: “Em suna, embora os mundos virtuais gerados pelo computador sejam apresentados (rendered) em perspectiva linear, eles são na verdade colecções de objectos separados, sem relação uns com os outros. Neste sentido, o argumento corrente de que as simulações computacionais em 3-D nos fazem voltar à perspectiva renascentista e, por isso, do ponto de vista da abstracção do século XX, devevem ser consideradas regressivas, tal argumento não tem na verdade fundamento. Se aplicássemos o paradigma evolucionário de Panofsky à história do espaço virtual do computador teríamos que concluir que este não atingiu ainda o seu estado renascentista, encontrando-se no nível da Grécia Antiga, que não conseguia conceber o espaço como uma totalidade”. Cf. «Navigable Space», in Manovich, The Language of New Media, MIT Press, 2001, pp.244-285.

[13] A expressão é de Friedrich Kittler, no ensaio “Computergraphik. Eine halbtechnische Einführung”, 1998 (http://www.hydra.umn.edu/kittler/graphik.html) o qual, pela sua inteligente e acessível explicação tecnológica, reforça em muito a nossa compreensão deste processo.

[14] KITTLER, Idem.

[15] Num ensaio que relaciona precisamente as invenções do alfabeto fonético e da perspectiva, Friedrich Kittler e Sara Ogger, interrogam-se se sobre se o computador não corresponderá hoje finalmente a uma culminação deste processo. Não a um regresso mas a uma espécie de fechamento do processo, em jeito de uma banda de Moebius: «No percurso que vai da ordenação de valores fonéticos discretos no alfabeto grego (stocheia) até ao reconhecimento óptico de caracteres como automatização da leitura não poderemos ver uma espécie de banda de Moebius da cultura técnica ocidental…?» («Perspective and the Book» Grey Room, Fall 2001, pp. 38-53).
 
Adicionar artigo a:Estes ícones permitem adicionar o presente artigo a redes de "social bookmarking".
  • slashdot
  • del.icio.us
  • technorati
  • digg
  • Furl
  • YahooMyWeb
  • Reddit
  • Blinklist
  • Fark
  • Simpy
  • Spurl
  • NewsVine