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Ciclo Imagem e Pensamento II - Pierre Klossowski e os Poderes da Imagem
Lisboa, 26-30 Abril 2010
Apresentação do Ciclo Ver e Dar a Ver: a Economia Visual do Pensamento Bibliografia de Pierre Klossowski Filomografia de Pierre Klossowski Colóquio Internacional Ekphrasis Ciclo de Cinema em torno de Klossowski Concurso Filmes de um Minuto
 

Apresentação do Ciclo

VER E DAR A VER: A ECONOMIA VISUAL DO PENSAMENTO

Je suis sous la dictée de l’image *
Pierre Klossowski

Eis a expressão do pensamento de um monómano – alguém que se fixa, repetidamente, numa única cena diversificada ora pelo acto, ora pelo objecto do acto, ora pelo actor: um corpo que se dá a ver a outro, nem que seja de si para si. Esta encenação visual serviu, precisamente, o trabalho do vidente Pierre Klossowski e, simultaneamente, o do seu público.

Desde o século XIX, a relação entre imagem e texto tornou-se amplamente problemática. A cultura do livro, e também a cultura católica, havia-a controlado rigidamente. As imagens tinham de ser autorizadas para poderem aparecer. É certo que o catolicismo sempre pressentiu nelas um perigo, sendo as imagens a matéria da “tentação”. Todavia, com as tecnologias ópticas, como a fotografia e o cinema, depois o vídeo e as imagens digitais, a imagem parece autonomizar-se, ganhar peso, escapar finalmente à infinita ekphrasis que a linguagem desenvolve.

É por isso tão pertinente a proposta que Pierre Klossowski realiza ao longo de toda a sua obra pictórica e textual, condensada numa frase inequívoca da sua Moeda Viva [1]: “só existe uma comunicação universal autêntica: a troca dos corpos pela linguagem secreta dos signos corporais”. Estes signos terão de ser, senão imagens, imaginados para poderem expressos. Pode dizer-se que o traço vale para o artista aquilo que a palavra vale para o escritor, ou a luz para o fotógrafo. Há um movimento primordial que se repete, independentemente do modo de expressão pictórica, e o que se repete é o gesto de pensamento do monónamo. Este movimento simultâneo de encenação exibicionista e voyeurista – interno e externo ao texto e à imagem – assenta que nem uma luva ao papel do voyeur e permite a criação de uma nova epiderme, uma nova matéria imagética capaz de realizar, afinal, um devir do pensamento: “a troca dos corpos pela linguagem secreta dos signos corporais” efectiva-se nos espectadores, no público.

Mas trata-se ainda, com Pierre Klossowski, de um jogo encenado, uma cena perversa que é a libertação figurada nos seus quadros vivos: cristalizar o momento da passagem do pensamento para a imagem e da imagem para o pensamento, de corpo em corpo, por intermediação da imagem – novamente a voluptuosa expressão: “só existe uma comunicação universal autêntica: a troca dos corpos pela linguagem secreta dos signos corporais”. Como se comunicam estes signos, que tipo de economia está em jogo nesta troca, partilha? A ressurreição de um corpo inerte para um corpo vivo, a suspensão de um gesto, um movimento, revela um valor de referência neutro mas intenso para o seu equivalente em emoções e sensações, em prazer e sofrimento. Emoção voluptuosa em circulação, corpo em movimento, esta moeda viva que é a imagem perversa e simulacral do pensamento-corpo é o signo libertário dos corpos que já-ainda hoje são escravos das suas pulsões, visões.

Aparentemente a imagem superou o pensamento, já não necessitando dele. Resultado paradoxal, se repararmos que a filosofia ocidental, a de Platão, por exemplo, começa justamente por um conflito com as imagens, que reduz através/com as ideias eternas, instaurando o caminho do “conceito”, de que a técnica digital é a culminação. No momento terminal deste processo, a relação entre imagem, palavra e texto tornou-se quase num enigma sobre o qual se deve lançar alguma luz, a possível. O que passará, talvez, por reescutar a frase de Giordano Bruno que diz, sibilinamente, “Pensar é especular com imagens”. Se tiver sido bem sucedida, esta nova camada de imagem aposta ao pensamento especulativo será a sua moeda viva, ao mesmo tempo o corpo de pensamento que clamava ser expresso e a sua imagem exposta, perversamente e ingenuamente nua.

Na estética klossowskiana não é, porém, o pensamento, um pensamento, aquilo que actualiza estas imagens; pois elas não obedecem a qualquer lógica ou sentido, são antes as intensidades quem lhes fornece, qual matéria prima, todas as visões expressas em texto (visual) ou em imagens. Mostrar mas também ver. Porque o espectador não pode gozar senão no imediato, no acto da mostração. É, portanto, um pensamento em acto que louva a imanência da apresentação e não qualquer transcendência, por muito perversa que seja, da representação. É na falha da representação, na sua dissimulação, na fuga e no esconderijo, numa fenda do processo de composição que nascem as imagens klossowskianas. Há um jogo de “mostra e esconde”, que faz lembrar o dito popular que garante que “quem dá e tira para sempre no inferno gira”; pois é esta eternidade que gira, este ciclo vicioso, este eterno retorno da diferença na perversão que estabelece o pacto – a troca pervertida dos signos a bem da comunicação universal dos corpos que vêem e são vistos, afinal, na sua vertente voluptuosa, intensa e virtual.

A imagem tem, pois, um sentido ontológico. Imprime no que revela uma marca da comunicação, da economia universal dos corpos, de todos os corpos do mundo. É, no entanto, no esgueire e na fuga, na dissimulação das personagens que Pierre Klossowski apresenta vivas nos seus quadros, que algo pode ser capturado, arrancado, e esse sequaz que sobeja é, por ser assim dado, novamente posto em fuga, impossível de prender, nem que seja por via de cordas ou outros instrumentos na posse de carrascos. É esta incoerência móvel, esta máquina perversa do pensamento de Klossowski que a imagem torna senão actualmente visível pelo menos virtualmente invasiva aos olhos de quem a olha – sem conseguir apreender o que vê, sem conseguir compreender, mas deixando-se possuir. Esta é, mais uma vez, a força da expressão visionária que Pierre Klossowski enuncia na sua Moeda Viva: “só existe uma comunicação universal autêntica: a troca dos corpos pela linguagem secreta dos signos corporais.”

Para Klossowski, a imagem não saberia ser feita à semelhança do seu modelo, porque então esgotá-lo-ia. É dele apenas um reflexo, um resíduo: um espécie de intercessor, de passador entre a representação que esconde e o culto apenas pensado, desejado. Será assim a imagem uma materialização, uma sexualização do pensamento? Não se trata de produzir visibilidade mas antes de tornar visível, no limite, o limite do pensamento que se esgueira. A exposição do estereótipo, inclusivamente sexual, serve para revelar a sua própria crítica ocultadora. Como sempre, com Pierre Klossowski, perverter o uso comum de um conceito ou de uma noção serve para voltá-lo contra si próprio e levá-lo para além dos seus respectivos limites. Romper o quotidiano por meio de algo aparentemente quotidiano. É esta repetição do que foi e do que não pode senão tornar a ser que habita o pensamento de Klossowski. Esse limite é o do simulacro. Tal processo exige uma vontade compulsiva, uma emoção voluptuosa e monomaníaca que recorre à mesmas imagens, nos seus romances, ensaios e desenhos. São os seus demónios, os seus fantasmas ou, como diria Gilles Deleuze, as suas personagens conceptuais.

Para completar uma expressividade aberta, a linguagem plástica de Pierre Klossowski – através de desenho a lápis de cor e mina de carvão, representando cenas muitas vezes em tamanho real, os seus “quadros vivos” –, completa a visão obsessiva de tornar vivos os corpos e os seus fantasmas, que são o movimento das emoções e sensações (abrindo um mesmo plano de imanência para a vida e a morte, através do esgueire e das intensidades fantasmáticas: os simulacra). Simulacros, fantasmas, imagens, visão de corpos que se esgueiram, seres de fuga que se expõem, todo um percurso de valor está pregnante neste hemisfério de desejo e perversão. Valor em circulação, corpo em movimento, a imagem é libertadora dos corpos-pensamento que já foram e sempre serão escravos de uma sociedade voyeurista.

Outro dito popular entra aqui em jogo, aquele que afirma que “uma imagem vale mais que mil palavras”. Se é, aparentemente, convincente, convoca porém a crença estonteante no poder mostrador das imagens. Compõe também toda uma ideologia que tem organizado, na cultura ocidental, as relações entre umas e outras, ao mesmo tempo que atribui à imagem um estatuto de encantamento sedutor (as imagens recebem-se sem esforço, são rápidas, directas, gulosas). Ora, este aforismo culpabiliza a palavra por ser trabalhosa, tortuosa, pesada, dolorosa. Além disso, parece querer afirmar, sem contestação, que a imagem é a solução para a problemática da palavra. As imagens conseguiriam realizar, sem esforço, o que as palavras buscam sem que o alcancem, tornando-se por isso um peso para os indivíduos.

Certo é que esta ideologia que envolve as imagens (a ideia de que elas não precisam de ser trabalhadas, que se impõem por si próprias) lhes foi criando uma via autónoma de produção no Ocidente, raramente penetrada pelo pensamento e pelas palavras. Para criar uma imagem basta uma máquina, como antes bastava a natureza que as produz profusamente. Agora, a imagem é forte porque produzida sem intervenção humana, limpa, pura, virgem de metafísicas. Mas não será este também o limite  da sua própria ilusão? Não se revelará aqui a implícita contradição deste novo discurso da imagem? É com o regime da imagem klossowskiana que se torna claro que: independentemente das condições da sua realização e produção, mais ou menos independente da mão humana, a imagem não existe se não for vista. E a sua visão continua, como sempre foi e sempre será, a ser simplesmente humana: demasiado humana, como diria Nietszche?

Luís Lima

 

Pour moi [répond Pierre Klossowski], le film, les tableaux, c’est du spectacle. Je l’ai dit aussi pour la rédaction de mes livres. Même quand je décris une situation qui n’est pas rendue immédiatement par l’image, c’est du spectacle. Un scénario, un livre, c’est toujours une succession de scènes, une succession d’instants que je décris, que j’imagine tels que les expriment les mots que j’utilise. Mais en fait, je suis sous la dictée de l’image. L’image me dicte ce que je dois dire. Oui, la vision exige que je dise tout ce que me donne la vision et tout ce que je trouve dans la vision. Nous fermons les yeux, ou bien nous les gardons ouverts, mais si nous les fermons, nous voyons tout à fait autre chose que ce qui se passe effectivement, nous voyons ce dont nous parlons. [2]


[1] Klossowski, Pierre (2008): A Moeda Viva, ed. Antígona, (trad. Luís Lima), Lisboa.

[2] Klossowski, Pierre, Bernard Lamarche-Vadel (1985), L’énoncé dénoncé, ed. Marval/Galerie Beaubourg, Paris.

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