culturaltech siteA relação entre cultura e técnica, presente em todas as grandes visões da experiência humana, como um dos seus principais eixos de constituição e de mutação, tornou-se na modernidade uma das interrogações centrais da cultura e das artes. Com a modernidade, tornou-se também evidente que a tecnologia que suporta a experiência cultural é, especificamente, uma tecnologia da mediação, cuja presença e descrição se tornaram familiares a partir dos finais do século XIX (com a fotografia, o gramofone, o cinema, a televisão e vídeo, etc...). Nessa tecnologia de registo e transmissão, tal como nas práticas ancestrais de inscrição, organiza-se o acesso à experiência e ao real, assim como o trabalho de recriação que em torno deles sempre fizeram as imagens, as linguagens e as artes. A invenção do computador e das novas tecnologias da informação que inauguraram a era dos media digitais representam um transformação fundamental nesta longa história das mediações culturais, na medida em que implicam um processo de radical convergência tecnológica e, portanto, a inscrição transversal de uma mesma infra-estrutura em todos os campos da experiência, do conhecimento e das práticas.

Nas malhas de uma história intrinsecamente composta por sistemas de escrita, os media tornaram-se, nas sociedades modernas e contemporâneas, objecto de investimentos maiores: investimentos propriamente tecnológicos, e também económicos e sociais; e ainda investimentos teóricos e críticos, criativos e experimentais. Eles formam uma rede de tecnologias que estão na base das nossas práticas de escrita e de leitura, de produção, transmissão e recepção de sons e imagens, das nossas literacias, das indústrias culturais e das artes.

Os questionamentos contemporâneos acerca da penetração entre a técnica e o humano não podem deixar de tomar em conta que as respostas a essas inquietações (científicas, filosóficas, políticas ou estéticas) se constroem também elas no quadro de uma certa condição medial. As mediações informacionais que atravessam e recompõem hoje o bios e a carne, reticulados pelo código, são as mesmas que recompõem também, através da digitalidade, o nosso corpo, os nossos discursos e as nossas práticas. Em suma, «os media determinam a nossa situação» dirá Kittler, insistindo numa hipótese milenar e sabida, da qual seria preciso extrair ainda, apesar de tudo, todas as efectivas consequências para «o assim chamado homem», para todas as universalidades que o amarram, e todas as idealidades que o libertam – do seu peso próprio. Quem não reconhece os media não poderá confrontar os dispositivos, desconectar neles os jogos de força, ou religar esteticamente a experiência histórica e singular da vida, que sempre necessita de algum aparelho, para aparecer.

O ciclo de conferências e o apelo à participação propostos pretendem ser um estímulo à recepção e à discussão de um pensamento actual e exigente na área da teoria e dos estudos da cultura, dos media e das artes, convidando especialistas do mais elevado perfil internacional e ainda uma comunidade alargada de investigadores portugueses, que participará neste programa: especialistas das ciências humanas, da teoria e dos estudos da cultura, das ciências da comunicação, da tecnologia dos media, da estética, da teoria e da história da arte, da literatura, do cinema e da fotografia, da música, da arquitectura e do design.

A nossa iniciativa pretende também homenagear, com sentida convição, o pensamento de Friedrich Kittler, um dos mais eminentes teóricos e historiadores da cultura e dos media, recentemente desaparecido. A sua obra conhece há muito uma grande influência em vários países e em vários contextos académicos, apesar de tardar, entre nós, uma divulgação e recepção mais alargadas. O Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens foi pioneiro na tradução e publicação de alguns dos seus ensaios. Desde então, a recepção de Friedrich Kittler tem estado presente entre nós, no âmbito da formação avançada, da investigação e do trabalho académico. No âmbito desta iniciativa, e com o apoio do Instituto Goethe de Lisboa, o CECL prepara a publicação de uma primeira colectânea de ensaios de Fr. Kittler em português.

Maria Teresa Cruz

 

In Memoriam Friedrich Kittler

O pensamento de Friedrich Kittler constitui um dos mais ricos contributos para os estudos culturais contemporâneos, devendo-se-lhe em particular uma profunda consciência da importância dos media na experiência moderna, consciência em torno da qual se estão a redesenhar algumas das questões centrais da filosofia e das ciências humanas, tais como a do humano, a da cultura e a da técnica.

O contributo que deu para a crescente relevância e transversalidade da problemática dos media e das tecnologias da mediação no pensamento contemporâneo prende-se com a densa visão arqueológica e transdisciplinar que sobre eles lançou e, sobretudo, com o questionamento filosófico e antropológico radicais com que aborda a relação entre o humano e os processos de mediação da experiência. Estes traços estão presentes desde os seus primeiros escritos, quer em torno dos dispositivos modernos de registo e reprodução dos sons e das imagens, quer também em torno da escrita, da poesia e da literatura (Aufschreibesysteme 1800/1900, W. Fink 1985 / Discourse Networks 1800/1900, Stanford 1990; Grammophon, Film Typewriter, Brinkmann & Bose, 1986), até à sua última obra (incompleta), que nos conduziria da invenção antiga do alfabeto fonético e da música até à invenção contemporânea do computador (Musik und Mathematik. 1 e 2, W. Fink 2006 e 2009). Nesta obra ficaram lançadas as linhas de uma investigação fundamental em torno da relação entre media e ontologia.

Na diversidade de campos em que o seu pensamento se move, cruzam-se os estudos culturais, a história e teoria da literatura, a história e teoria dos media e a filosofia da técnica, sendo este ainda atravessado por um conjunto de matrizes teóricas e metodológicas centrais da segunda metade do século XX, tais como o pós-estruturalismo, o descontrucionismo e a psicanálise, sob a influência de autores como J. Derrida, M. Foucault, J. Lacan ou M. Heidegger.

Serão assim muitos, aqueles a quem o pensamento de Friedrich Klittler poderá instigar, tanto mais que o seu ensaísmo e a sua escrita se revestem de um notável vigor intelectual e de um estilo marcante. É a todos eles que este ciclo de conferências se dirige, dois anos após o seu desaparecimento, na convicção de que o seu pensamento terá uma recepção prolongada e profícua que apenas se iniciou ainda.

Friedrich Kittler estudou literatura, filologia e filosofia na Universidade de Freiburg, realizou o seu doutoramento (1976) e Habilitation (1984) na área de literatura moderna e dirigiu nos anos seguintes (1986 – 1990) o programa de Literatura e Análise dos Media do DFG (Deutsche Forschungsgemeinschaft – Fundação Alemã Para a Investigação). Aufschreibesysteme 1800/1900 (1985 / edição inglesa: Discourse Networks 1800 / 1900, Stanford 1990) e Grammophon, Film Typewriter (1986 /edição inglesa: Gramophone, Film, Typewriter, Stanford 1999), compõem a parte mais sistemática da sua obra e da sua metodologia e testemunham este percurso entre a teoria e a história da literatura e a história e teoria dos media, sob influência do pós-estruturalismo (nomeadamente de Lacan, Foucault e Derrida, com quem contactou pessoalmente). Entre a sua vasta obra, crescentementre dedicada à teoria e história da cultura ocidental, lida a partir de uma arqueologia dos media destacam-se ainda: Draculas Vermächtnis (1993); Literature, Media, Information Systems: Essays (ed by John Johnston, 1997); Eine Kulturgeschichte der Kulturwissenschaft (2000); Optische Medien (2002/edição inglesa: Optical Media, with Polity Press, 2010); Vom Griechenland (com Cornelia Vismann, 2001). A partir de 1993 Kittler ocupou a cátedra de História e Estética dos Media da Universidade Humboldt de Berlin, onde era também membro do Centro Hermann von Helmholtz Para as Tecnologias Culturais e investigador do grupo «Imagem, Escrita, Número». Foi ainda professor da European Graduate School (Saas-Fee, Wallis, Suiça) e professor visitante em diversas unviersidades estrangeiras, entre as quais a Universidade da California, Berkeley, a Universidade da California, Santa Barbara e a Universidade de Stanford. Foi agraciado com o "Prémio Siemens para as Media Arts" (pelo ZKM- Zentrum für Kunst und Medientechnologie, Karlsruhe, em 1993), reconhecido como Distinguished Scholar da Universidade de Yale (1996), e como Distinguished Visiting Professor da Universidade de Columbia University, Nova Iorque (1997). Os seus dois últimos livros publicados, sobre as origens e identidade da cultura ocidental, na perspectiva de uma ontologia dos media, faziam parte de um projecto mais vasto que culminaria com uma obra sobre Alain Turing: Musik und Mathematik. Band 1 Hellas, Teil1: Aphrodite (Wilhelm Fink Verlag, Paderborn, 2006); Band 1 Hellas, Teil 2: Eros. (Wilhelm Fink Verlag, Paderborn,2009). A sua obra está largamente traduzida e comentada na Europa e nos Estados Unidos da América, estando publicados em português cinco dos seus ensaios.

Ensaios de Friedrich Kittler publicados em Portugal
  • Kittler, Friedrich (2002), «Ligações on/off», in Bragança de Miranda, José A. e Cruz, Maria Teresa (Org.), Crítica das Ligações na Era da Técnica, Lisboa: Tropismos.
  • Kittler, Friedrich (2011), «Técnicas Artísticas», in Cruz, Maria Teresa (Org.), Novos Media. Novas Práticas, Lisboa: Nova Vega, 2011
  • Kittler, Friedrich (2012) «Código ou como algo pode ser escrito de outro modo» tradução de Jorge Rodrigues, in Dossier (in memoriam Friedrich Kittler), Revista de Comunicação e Linguagens, Nr. 43/44, Lisboa: Relógio d' Água
  • Kittler, Friedrich (2012) «Sobre a implementação do conhecimento. Para uma teoria do hardware», tradução de Jorge Rodrigues, in Dossier (in memoriam Friedrich Kittler), Revista de Comunicação e Linguagens, Nr. 43/44, Lisboa: Relógio d' Água.
  • Kittler, Friedrich (2012) «Computação Gráfica: uma introdução semitécnica», tradução de Jorge Rodrigues, in Dossier (in memoriam Friedrich Kittler), Revista de Comunicação e Linguagens, Nr. 43/44, Lisboa: Relógio d' Água