Home arrow Edições arrow Edição nº12 arrow Longe das musas, perto da rede
Longe das musas, perto da rede Versão para impressão E-mail
Autor: Fernando José Pereira   
01-Feb-2008
Índice
Longe das musas, perto da rede
Notas sobre o museu contemporâneo
Museu e exterior: relações problemáticas
O museu e o alargamento digital
Bibliografia

O museu e o alargamento digital

Mas o museu encontra-se no mundo contemporâneo em mutação acelerada. A sua ligação à actualidade passa, também, pela expansão para a rede.

Uma questão que imediatamente se coloca, prende-se com os desenvolvimentos tecnológicos como potenciadores das rupturas. Se, por um lado, a ligação à rede vem trazer uma nova expansibilidade ao museu, pelo outro, vem confirmar alguns problemas que já se encontravam presentes na arte moderna e que na época tecnológica que vivemos se vêem agravados. Referimo-nos ao problema da emancipação proposto por Benjamin a partir da reprodutibilidade técnica das obras.

Para este autor a emancipação da arte ligava-se directamente à componente tecnológica. Peter Burger aparece com uma posição extremamente crítica desta teoria, não que desvalorize a questão da queda da aura, mas porque não acredita que a tecnologia esteja na base das rupturas entretanto produzidas. Refere este autor:

Os limites deste modelo explicativo [o modelo de Benjamin][1] tornam-se evidentes quando se comprova a impossibilidade de transferi-los para a literatura, em cujo campo não existe nenhuma inovação técnica susceptível de haver produzido um efeito comparável ao da fotografia nas artes plásticas. (Burger, 1974)

O problema é complexo porque, obviamente, existe um pouco de razão em ambos os lados. A visão de Walter Benjamin pode ser inteiramente confirmada com os desenvolvimentos tecnológicos mais recentes. Não devemos esquecer que, por exemplo, Roy Ascott defende, exactamente, uma posição que descende directamente daquela. Segundo este, existe um antes e um depois. Este corte é produzido pela tecnologia digital que, pelas suas capacidades de interacção, isto é, capacidades técnicas, se distancia largamente da restante produção. Contudo, as intervenções que se apresentam como mais interessantes no panorama contemporâneo, inclusive, museológico, integram-se numa esfera que não abdica da sua incorporação em ambientes que derivaram, e assim continuam, dos desenvolvimentos vários produzidos pela arte conceptual.

Quanto às razões apresentadas por Burger. À partida pareceriam imbatíveis talvez o tenham sido no ano em que o texto foi escrito , simplesmente, a mesma tecnologia de que Burger se demarca alterou e continua a alterar os modos de fazer, também, no campo da literatura. Atentemos no caso paradigmático do hipertexto, e veremos que toda a produção que se encontra a ele vinculada poucas afinidades tem com a produção anterior. Numa entrevista on-line Benjamin Weil ex-director do site adaweb, entretanto desaparecido, e agora director do ICA de Londres[2] refere o caso de uma escritora, Darcney Steinke:

She was interested in what she could do with the web, and also, critically for her, how it might affect the way she writes. Basically she writes books and articles. The whole idea of writing for the Net and exploring how people read on the screen, addressing issues of how people read differently in a book opposed to a screen, how does a dematerialized text rematerialize in a different form with pictures and interface… (Weil, 1998)
O hipertexto vem dar a oportunidade nunca antes possibilitada de interferência directa na escrita. O hipertexto pode definir-se como um conjunto de blocos de texto (não necessariamente verbal) que podem possibilitar ligações, tanto internas como externas, potenciando, assim, no leitor, uma leitura não linear, ou dito de forma mais técnica: multilinear e multisequencial (Landow, 1992). A obsolescência que revela é, de certo modo, um factor de verdade, perante a evolução da tecnologia, que se desmaterializa conceptualmente, como tantas outras posições. Ou seja, a relação entretanto estabelecida pelos museus com a tecnologia digital traz configurações conceptuais novas que necessitam de reflexão.

Como em outros sectores da sociedade, também o museu como instituição iniciou já o seu percurso em direcção à sua integração plena na rede.

Tipologias diversas são propostas pelos variados sites existentes. Em primeiro lugar, o site como lugar de visita (tour). A instituição revela ao visitante uma possibilidade de passeio virtual pelos seus espaços e colecções, sempre como presença externa. Não existe, de facto, uma imersão no ambiente virtual. As possibilidades registadas são de modo a que nenhum visitante tenha a sensação de que poderá substituir a sua visita real a um site virtual.

Uma outra possibilidade de intervenção é aquela que permite a imersão do visitante nos espaços do museu, podendo este dirigir o seu passeio no interior do espaço da forma que entender, mas sempre internamente, isto é, com a utilização intensa de tecnologias de imersão como o QTVR (QuickTime Virtual Reality). Estas tecnologias permitem, através de um esquema interactivo accionado pelo mouse, uma completa autonomia por parte do visitante na exploração das possibilidades de panorâmicas, aproximações, afastamentos, etc.

Estas técnicas contribuem largamente para um dos principais interesses do museu, como instituição, agora, virtual. O expandir on-line das suas actividades, nomeadamente das suas exposições. Com o interesse por parte dos artistas a subir de tom, o museu necessita de acompanhar esta nova evolução, daí que existam, também, exposições especificamente on-line, isto é, sem qualquer referência ao espaço real.

Perante tantos motivos de alargamento é a própria estrutura organizativa do museu que requer adaptações aos intuitos que advêm da sua inserção no ambiente virtual. Um novo tipo curatorial parece ser inevitável. O curador virtual procede a um trabalho de selecção do espólio, entretanto digitalizado. Este espólio é evidentemente diferente de todos os existentes em forma tangível, por não poder ser “arrumado”, daí a necessidade absoluta de selecção.

Refere Steve Dietz:
Digitizing assets is not dissimilar to the historical function of the museum to preserve artifacts. As this process becomes more and more successful, however, there will be an increasing need to find ways to “filter” the vast quantities of information that are available. The emphasis will shift from simply creating content to presenting a context for it. (Dietz, 1998)
A apetência pelas questões tecnológicas, revelada por todos aqueles artistas que sempre se interessaram pela experimentação, leva o seu trabalho a incorporar componentes tecnológicas, desde as mais simples, às mais complexas. Daí o interesse que revelam as intervenções, em torno das tecnologias digitais, como componente importante do actual trabalho das vanguardas. Daí, também, de acordo com a nossa perspectiva de intervenção, no interior do museu, a importância e a atenção que vimos dando ao processo de adaptação desta instituição a estes novos desenvolvimentos tecnológicos.

Para finalizarmos esta análise, queremos desenvolver algumas considerações em torno de um conceito criado por Jon Ippolito que se prende com a questão da tecnologia como componente artística e a sua relação com o tempo e, consequentemente, a sua relação com o museu. A esta noção o autor designa por: meios variáveis.

A introdução da arte digital no museu coloca problemas que se vêm agravando desde o aparecimento das várias facetas mais desmaterializadas da arte conceptual. Um dos problemas essenciais que se colocam passa pela preservação dos materiais, quase sempre tecnológicos, numa perspectiva de futuro contaminado pela sua obsessiva evolução.

Ippolito refere um caso paradigmático, que transcrevemos de seguida, como ponto de partida para as considerações acerca da noção que propõe:
Las instalaciones de luz fluorescente de Dan Flavin son un caso indicativo. Flavin escogió a propósito tan sólo los ocho colores estándar de los tubos fluorescentes disponibles. Cuando unos años más tarde el Guggenheim y el DIA Center for the Arts montaron una retrospectiva de sus trabajos, el conservador descubrió que uno de aquellos colores, el cereza rojo profundo, había dejado de comercializarse porque la exposición a un pigmento tóxico que revestía el interior del tubo representaba un peligro laboral para quienes lo fabricaban. Como consecuencia, los coleccionistas de los trabajos de Flavin tuvieron que hacerse con todas las bombillas rojo cereza que pudieron encontrar y almacenarlas para ser utilizadas en futuras exhibiciones. Es sin duda una ironía que trabajos en la aparentemente infinita reproducibilidad de la fabricación industrial, ahora estén guardados en los almacenes del Guggenheim, junto a muchos Kandinskys e Picassos. (Ippolito, 1998)
Esta situação, exemplar, vem colocar as questões dos materiais como problemáticos, a vários níveis.

Em primeiro lugar, surge, com clareza, a ideia de que, mesmo os materiais mais difundidos industrialmente, não resistem ao tempo. A nível tecnológico o avanço já não se mede em medidas tangíveis. Daí que tenha que existir uma consciência, por parte dos artistas, dos processos a utilizar, isto obviamente na perspectiva da sua entrada no museu. A não competência que se verifique a este nível inviabiliza a sua permanência como obra, pois não tem possibilidade de ser mostrada. Existe a possibilidade, já ensaiada por alguns museus, de transferir toda a informação para suportes digitais tangíveis como é o caso do cd, contudo, existem problemas operativos que inviabilizam grandemente esta. Se a obra em causa se posiciona para a rede, não é possível a sua visão integral em suporte digital compacto, por óbvia falta de ligações com o exterior. Este é só um dos exemplos dos problemas que se levantam. Como refere Ippolito, os museus não se tornarão obsoletos por si mesmo, mas absolutamente aborrecidos.

A condição de variabilidade que pode ser atribuída a uma obra já não é um dado novo. Como vimos, desde os primórdios da arte conceptual que os vários integrantes vão disponibilizando as suas obras para ambientes distintos e para as necessárias actualizações. Não é por acaso que este processo está integrado nas premissas da arte conceptual. Ele parte de um pressuposto que é importantíssimo: a necessária condição de suporte em si mesmo, isto é, nada mais que esta condição, nunca uma sobrevalorização desta componente.

Dan Graham coloca as questões dos suportes ensaiados pela arte conceptual, como eixos de reacção a alguma da arte minimalista que funcionava no interior da galeria. Toda a arte minimalista estabelece um diálogo muito forte com o espaço em que se encontra inserido – a famosa querela introduzida por Michael Fried e a sua noção de arte teatralizada –, logo o objecto artístico nunca poderá ser analisado fora do contexto espacial do museu/galeria, isto é, o minimalismo expandiu o seu significado ao tomar o espaço como um suporte objectivo.

O que Dan Graham propõe, através de uma auto-análise crítica das suas obras para revistas, é uma expansão da noção de suporte, que tende à sua “não valorização”. Refere o artista americano:
Normalmente las revistas reproducen arte de «segunda mano», que existe primero, como presencia fenomenológica, en las galerías. «Schema»[3], por el contrario, existe sólo por su presencia en la estructura funcional de la revista y lo que es expuesto en las galerías es lo que es de «segunda mano». (Graham, 2000)
Uma das questões que Graham coloca em jogo e que nos interessa de sobremaneira prende-se com o alargamento medial por parte dos artistas. O suporte não é interveniente primordial, antes, é componente do desenvolvimento do projecto. O carácter camaleónico que o suporte pode adquirir no âmbito da arte conceptual coloca esta forma de intervenção artística como um dos antecedentes decisivos do alargamento contemporâneo do trabalho dos artistas à rede.

Contudo, apesar dos desenvolvimentos havidos, tal como é realizado a outros níveis, inclusive por muitos artistas digitais nos nossos dias, o suporte adquire uma posição de sobranceria relativamente às restantes partes da obra que impossibilitam a sua necessária adaptabilidade. Se o processo se encontra facilitado nos chamados suportes tradicionais, ele agudiza-se imenso na opção digital.

A proposta de Jon Ippolito parece-nos muito inteligente. Por um lado realça as noções de adaptabilidade, ou por outras palavras, foge a um formalismo ainda expansivo, através de um procedimento que favorece a não valorização do suporte[4]. Procede a um acerto da intervenção dos artistas que utilizam o digital, no interior do museu. Como vimos, em descendência directa dos desenvolvimentos conceptuais. Não nos parece existir qualquer contradição entre esta viagem para o interior do museu e as posições de Dan Graham, o que este propõe é o alargamento da noção de instituição arte, também, ao âmbito da imprensa escrita, o que, de certo modo, poderá ser entendido, em termos contemporâneos, como o seu alargamento ao virtual corporizado pela rede.

La revistas determinan un lugar o un marco de referencia a la vez dentro y fuera de lo que definimos como arte. (Graham, 2000)
Permite a sua permanência no museu de forma activa, potenciando o grau de intervenção na instituição, por oposição a uma fuga por declarada incompatibilidade adaptativa em primeiro lugar, da instituição às obras, em segundo lugar dos artistas mais interessados em experimentação digital ao legítimo lugar de reflexão das suas obras: o museu, agora tornado virtual. Para concluir utilizaremos, uma vez mais, as palavras de Jon Ippolito:
Sin embargo, la Iniciativa del Medio Variable por muy estrafalaria que parezca esta idea en el contexto tradicional del coleccionismo ofrece una alternativa para los proyectos cuyo concepto va mas allá de su manifestación formal. Esto nos ayuda a imaginarmos los museos como incubadoras donde los proyectos artísticos puedan seguir viviendo y cambiando, más que un mausoleo para proyectos muertos[5]. (Ippolito, 1998)


[1] Os parentesis são nossos.

[2] A designação completa das suas funções é Director do New Media Center at the London Institute of Contemporary Art.

[3] Schema é uma obra de Graham de 1966, que tem existência unicamente nas páginas de uma revista. Os seus conteúdos são definidos em função da significação geral da revista, adaptando-se a eles. (Poderemos ver aqui uma actualização da mesma perspectiva contextual ensaiada pelos minimalistas relativamente ao espaço, ou seja, em ambos os casos encontramo-nos frente a obras site-specific.)

[4] A desvalorização do suporte que referimos não é, contudo, no sentido da sua desclassificação. Uma entrada no âmbito, há muito esgotado, da dualidade conteúdo/forma está longe dos nossos intuitos. Ela efectua-se, antes, por uma consciência da sua condição de suporte. A sua designação semântica é clara quanto a este aspecto.

[5] No âmbito de uma inciativa de arte pública levada a cabo pela Fundación Luis Seoane na cidade da Corunha, denominada “Fardel de Dissidências”, o comissário Nilo Casares reflecte no seu texto, utilizando uma forte ironia, sobre a sempre presente componente de vandalismo existente nas ruas e, logo, na arte aí mostrada, e do campo protegido que é o museu. Refere Casares:

“Como este vandalismo me viene persiguiendo en las distintas intervenciones públicas que me ha tocado comisariar, quiero dejar constancia de él desde esta sala «cementerio de arte» (lo cual resulta bastante consecuente con el impulso que alumbra el Arte público, la moribunda del Arte privado, la proximidad formal entre la clínica y la sala de exposiciones.” (Casares, 1999)

Por muito apelativo que o discurso possa ser, peca, contudo, pelas mesmas razões já anteriormente apontadas por Hal Foster relativamente à desocupação da instituição, por parte das intervenções mais avançadas da arte que se faz nos nossos dias. Este é um forte tema de reflexão para os intervenientes da vanguarda actual, parafraseando Casares para os "netos da vanguarda". No mínimo a atenção deve ser virada para um inequívoco (e modernista) sentido evolutivo, mais não seja, para que os netos não cometam os mesmos erros dos avós. A História aí está, oferecendo-se como manual, escamoteá-la é deitar tudo a perder.



 
Adicionar artigo a:Estes ícones permitem adicionar o presente artigo a redes de "social bookmarking".
  • slashdot
  • del.icio.us
  • technorati
  • digg
  • Furl
  • YahooMyWeb
  • Reddit
  • Blinklist
  • Fark
  • Simpy
  • Spurl
  • NewsVine