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Edição nº9
Práticas auto-gráficas | Práticas auto-gráficas |
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| Autor: Maria Augusta Babo | ||||||
| 01-Nov-2007 | ||||||
Página 3 de 3 Uma fenomenologia do traço Justamente, é um teórico da fotografia, W. Flusser, que define a escrita como acto de inscrição, como arranhão: “Escrever é querer penetrar a superfície, portanto, uma manifestação daquilo a que chamamos o pensamento. Escrever é uma fenomenização do pensamento” (1999, p.20). Da mão que assina pelo seu próprio punho se pode dizer o mesmo que da boca que profere a palavra: ambas possuem outras aptidões sensíveis, háptica a primeira, gustativa a segunda, integrando uma fenomenologia do corpo que, de sensível, passa no entanto a corpo ortopedizado, corpo inscrito no simbólico. Além disso, a mão opera esse tipo de transcrição do oral ao escrito, como opera também a transcrição do visível no traço desenhado que ganha valor simbólico.
Digamos que a assinatura é a prática auto-gráfica por excelência: implicação do corpo próprio no gesto que traça e como tal o marca simbolicamente. Uma escrita pela própria mão; a mão joga aqui como instância metonímica do corpo, a mão como parte está pelo corpo como todo, executando, nesse movimento, a própria destreza de um corpo que assim adestrou a mão. Mas essa destreza que é uma domesticação da mão e que se condensa no gesto será, no gatafunho, no acto de traçar e, por extensão, na assinatura, o acontecimento que é o encontro momentâneo do corpo com o traço; do corpo que traça com o resíduo actual e já passado da sua própria inscrição. Encontro do tacto com o suplemento técnico, suturado nessa tecnicidade do corpo de que relevam as impressões digitais significantes (Derrida, 2000, p.252). Passagem dos sentidos ao sentido, ou suspensão do sentido nos sentidos? Eis a transformação imaterial que resiste e persiste como nó duro do acto de assinar. Para J.-L. Nancy: “escrever: tocar na extremidade. (…) Escrever toca o corpo, por essência (…)”, (in Derrida, 2000, p.321). Escrever toca o corpo quando o corpo é o próprio limite da escrita-assinatura. A assinatura cumpre assim essa função limite do próprio e da escrita, na medida em que articula a presença do corpo no gesto com a sua ausência na marca. Ela integra, ao mesmo tempo, o nome próprio enquanto signo limite ou limite do signo e o acto de escrita - a escrita em acto. Estando o nome dito próprio já marcado pela sua grafia própria - a maiúscula - a assinatura vai reduplicar esta marcação ao fazê-la pelo punho daquele que assim assume o próprio. A assinatura é a actualização, num determinado tempo e lugar, do nome próprio. Enquanto acto, ela pertence ao acontecimento; enquanto escrita, ao passado: é essa outra aporia da assinatura. Dir-se-ia que a singularidade irrepetível do acontecimento, do acto de afirmação do próprio, enquanto acontecimento puro, é ilegível: “irrupção de nós mesmos, irrupção em nós mesmos, inaudível e inédita - irrupção distendida, inapresentável à força de acontecimentos sem palavra (…)” afirma G. Soussana, (2001, p.27). A assinatura como limiar da escrita tem o seu próprio limite no gatafunho como acto de marcação, singular e irrepetível, único, mas ilegível e aleatório. Nesta fenomenologia do indicial, o grafo - e a escrita como grafo - abrem um universo infinito de implicações. Como processo de individuação, as práticas do grafo exploram antes o regime da indicialidade, na medida em que é nele que se vem grafar o próprio corpo ou o que dele resta como resto. Uma vasta extensão de práticas se nos apresenta à consideração, desde aquelas que, submissas, se submetem à escrita na sua gramaticalidade pura, na dimensão exterior mas também alheia que possui mesmo quando usada em nome próprio, como por exemplo, a prática autobiográfica, até às que, indisciplinadas, eventivas e eventualmente eventuais constituem a panóplia possível de marcações do corpo no seu habitat exterior - pegadas, impressões digitais, rastos ou restos sanguíneos, e tudo o mais que do corpo resiste à sua passagem furtiva ou fugitiva: resíduos. Ora, dado que a autobiografia como género consolidado tem explorado e esgotado o regime da escrita autográfica, dedica-se esta comunicação a outras práticas que híbridas, onde a escrita, na sua dimensão gestual e icónica excedem a narrativa de vida. ***
Poder-se-ia ainda referir, como extensão das marcas autográficas, o caso das tatuagens. Le Breton estabelece uma relação de equivalência entre as marcas murais, os graffitis, e as marcas no corpo, as tatuagens. Também estas são sistemas de apropriação do corpo e processos reivindicando a sua singularização. O corpo funciona então como carne exposta ao processo de apropriação, expressão de uma nova singularidade. Se a maquilhagem se difundiu no Ocidente praticada no corpo feminino, ela difere estruturalmente da tatuagem dado que funciona no sentido do trompe l’oeil, isto é, reforçando a dimensão naturalista do corpo. A tatuagem, nesta perspectiva, surge antes como rasura do corpo, desnaturalizando-o. Ela aponta para um outro regime estatutário do corpo e da pele: o regime especular. Na verdade, o corpo tatuado, tal como o corpo sujeito às incisões dos piercings, é um corpo que se dá a ver, ao outro e a si próprio, apelando a uma estética da presença, como refere Le Breton (2004, p.152). A pele torna-se, no dizer deste autor, uma tela que exige observadores. O regime do olhar, tal como no espelho, instaura essa estética da presença que outras marcas autográficas dispensam ou são dele suplemento. Seguindo essa estética da presença, poder-se-á referir uma outra vertente, no caso dos piercings, que é a da própria dor como presença vigilante do corpo a si próprio, como componente estruturante de tal prática autográfica. Relembrar-se-á, a este propósito, o filme de Greenaway - O livro de cabeceira - que explora os meandros mais recônditos dessa erotização que constitui, ao olhar, uma escrita no corpo, um corpo como livro, ou, para empregar a expressão de Blanchot, “uma escrita do fora”. A escrita advém como evanescência do pensamento, tornando-se sensação (Da Costa, 2004, p.415).
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