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Edição nº8
A (Des)Razão no Transcurso da Modernidade: Apontamentos Relativos à Teoria Crítica | A (Des)Razão no Transcurso da Modernidade: Apontamentos Relativos à Teoria Crítica |
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| Autor: Manuel Menezes | |
| 01-Out-2007 | |
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Página 2 de 6 Não pretendendo insinuar que a obra é um mero reflexo do seu tempo, pensamos ser importante não descurar o momento em que as reflexões presentes na Dialektik der Aufklärung[1] emergiram na esfera pública, porque, o mesmo por um lado, facilita a compreensão do entzauberung (desencantamento) presente em Theodor Adorno e Max Horkheimer e, por outro, pode servir de justificação (num primeiro momento) aos excessos e/ou à radicalização da análise encetada pelos autores[2], análise essa que, patenteando uma crítica total da condição moderna acaba, em última instância, por captar a mesmade forma arbitrária, redutora e unilateral (Eric Bronner, 1994).
Falamos em desencantamento, visto que, apesar de cientes das possibilidades de emancipação do sujeito que o aufklärung[3]abriu (razão como facilitadora da dissolução da obscuridade que rodeava o ser humano), esta dimensão é menosprezada de modo radical por contraposição a uma outra, onde é salientado um processo regressivo que, inconscientemente, o mesmo estava a estimular e que, como resultado último, demonstrava a sua «autodestruição». Neste sentido, a preocupação com o modo como, no seu evoluir, a razão moderna sofreu inflexões, desvios, curvas, alterações, comprova um posicionamento partilhado por uma miríade de discursos onde, a intenção última, é a análise não só das «promessas» presentes no projecto do aufklärung, mas também o diagnosticar do falhanço das mesmas no atinente à emancipação humana[4]. Dito de outro modo, encontramo-nos face a um discurso que «sonegando» o pólo positivo, procura, essencialmente, captar o núcleo negativo da razão – «[...] a razão ou modernização, inicialmente emancipatória da ordem estática pré-moderna do Ancien Régime – na abertura de possibilidades para a livre expressão, para a democracia popular e para os mercados livres do capitalismo – volta-se em seguida sobre si mesma, [… conduzindo a uma experiência] em que os avanços do “sistema” parecem destruir inexoravelmente o “mundo da vida”» (Scott Lash, 1995: 137, sublinhado no original). No fundo os autores apresentam-se desiludidos com a modernidade, tentando explicar o porquê da não realização (ou realização em excesso) das promessas do projectualismo mediador da mesma. Um posicionamento criticável, na medida em que, nestas situações, o discurso (enquadrando a tradição «epocológica» dos discursos da modernidade), ao interligar narrativamente o passado e o futuro, «[...] visa fundamentalmente o presente [...]», i.e., o passado é reelaborado de acordo com as problemáticas actuais, obrigando igualmente - este tipo de narrativa - a ficcionar o que ainda está para vir (Bragança de Miranda,1994: 180, 205)[5]. A tentativa de compreender, explicar o porquê de tal problemática vai-se constituir, então, como a estrutura mediadora de parte significativa do texto, onde se pretende encetar uma analítica do entrelaçamento existente entre mito e aufklärung. Assim sendo, naquele que é considerado o «livro mais negro» dos autores (Jürgen Habermas, 1985), é-nos apresentado um discurso que, visando clarificar as interconexões que a racionalidade possui com a realidade, por um lado, e, com a natureza e sua dominação, por outro, enceta uma análise crítica, onde é enunciada a tese paradoxal – «o mito já é esclarecimento e o esclarecimento acaba por reverter à mitologia» (1947: 15; cf. 26)[6]. Indiciando uma emergência temporal similar, o primeiro já possui uma dimensão de aufklärung, pois, segundo Theodor Adorno et all, na Odisseia[7] encontramos uma narrativa da proto-história de uma subjectividade que, com o intuito de elidir o medo, procura desligar-se dos constrangimentos que o mundo primitivo impunha, ou seja, a epopeia homérica consubstancia-se como metáfora do «[...] trajecto de fuga que o sujeito empreende diante de potências míticas» (1947: 55). Por outras palavras, o mito é um produto da racionalidade (uma espécie de aufklärung pré-moderno), na medida em que procura – ainda que de um modo pouco sofisticado – por intermédio da «fuga», preservar o ser humano dos condicionalismos que o rodeiam. Quer dizer, a interpretação mítica da experiência consubstanciava-se como um elemento mediador das interconexões existentes entre o ser humano e um meio ambiente urdido por ameaças. Consequentemente, constata-se que Ulisses é considerado o protótipo do sujeito moderno (Theodor Adorno et all, 1947: 53), vindo a Odisseia a desempenhar no discurso, uma função alegórica da fascinação moderna pela tecnologia e razão instrumental – «o que une os dois [Ulisses e o indivíduo burguês], é a astúcia de Ulisses, a sua característica mais famosa. Tal como a burguesia do mundo capitalista, também Ulisses emprega a razão instrumental para atingir os seus próprios intentos. Isto capacita-o para sobreviver aos horrores mitológicos do mundo ante-moderno. Ele sacrifica tudo o que poderia desejar, tudo o que valorizava, mesmo a sua tripulação, que acaba por sucumbir toda na viagem de regresso a Ítaca. E, assim, ele escapa ao mundo mitológico da sua viagem» (Curtis Bowman, 1996: 10). O mito, sendo mediado de um modo visceral pelo princípio da antropomorfização, exprime, em última análise, o desejo humano de libertação face às dependências impostas pela natureza e a, consequente, aspiração de dominação da mesma, porquanto, os sacrifícios, as promessas ou as preces, mais não são do que uma tentativa de subjugação dos deuses, espíritos ou demónios, aos nossos interesses. A questão torna-se, no entanto, mais complexa a partir do momento em que retrospectivamente nos apercebemos que o ser humano, apesar da antropomorfização, da projecção da sua essência na natureza, não conseguiu atingir os objectivos pretendidos. Isto é, a mitologização da experiência, contrariamente à elisão desejada, acabou por produzir uma experiência virtual, virtual no sentido em que o homem não assimilava a essência da mesma. Os mitos em vez de facilitarem o controlo sobre a natureza acabaram por controlar, isso sim, a acção humana na medida em que, contrariamente a um controlo real, criaram uma ilusão de controlo humano sobre a experiência (Curtis Bowman, 1996). Podendo-se, então, concluir que o controlo simbólico sobre as condições de existência, apesar de ter desempenhado um papel de alguma importância no confinamento da ansiedade, falhou rotundamente no controlo real do contingente. [1] Escrita a duas mãos, não se sabe, no entanto, com certeza quem escreveu o quê; este condicionalismo é assinalado pelos próprios autores - «é difícil para alguém de fora fazer ideia da medida em que somos ambos responsáveis por cada frase» (1947: 9). Para uma análise das modificações que o texto foi sofrendo desde o seu surgimento como ideia até à sua publicação e o levantamento de algumas hipóteses quanto ao contributo dado pelos dois autores para a elaboração das diferentes partes da obra, cf. James Schmidt (1998; 2003). [2] Segundo Jürgen Habermas o contexto que os autores vivenciaram «[...] permite a compreensão de como pôde consolidar-se, nos anos mais sombrios da Segunda Guerra Mundial, a justa impressão de que a última centelha da razão desaparecera dessa realidade, deixando desesperadamente para trás as ruínas de uma civilização em decomposição» (1985: 166-7); para uma interpretação similar, cf. Peter Wagner (1995); Curtis Bowman (1996); Pissarra Esteves (1998). Com algumas ressalvas quanto a um possível reducionismo biográfico do qual não partilhamos, pensamos ser igualmente correcto o realçar das influências que as experiências de vida de Zygmunt Bauman (próprias ou dos que lhe eram próximos), exerceram sobre as suas preocupações intelectuais, o seu pensamento social; sobre este aspecto, cf. Zygmunt Bauman et all (2001). [3] Tomando em atenção o título da obra, convém clarificar o termo aufklärung. Pode ser traduzido por esclarecimento, racionalismo ou iluminismo e, na tradução de aufklärer,encontramos racionalista e iluminista; por sua vez aufklärungszeitalter, remete para o século das luzes e iluminismo (cf. Dicionário de Alemão-Português, 1985). Na obra por nós consultada (tradução brasileira), a opção recaiu sobre esclarecimento, no entanto, pensamos ser mais correcta a adopção do vocábulo iluminismo ou a sua manutenção no original. Igualmente de assinalar, é o facto de, na obra, o vocábulo aufklärung ser utilizado em sentido lato, pois, não se limita ao seu balizamento histórico – aufklärungszeitalter – mas tem em atenção o processo de racionalização que é identificado com o exaurir da razão. [4]O diagnóstico relativo à elisão da subjectividade era partilhado por vários autores da Escola de Frankfurt que, em face da experiência, vislumbravam somente uma saída utópica por intermédio da alta cultura: «o domínio crescente da razão instrumental foi capturado por vários membros do Instituto como o sinal de um contexto onde todas as formas de acção social e política propiciavam a destruição da subjectividade. Só a inversão estética ou filosófica da vida pública era vista como sendo capaz de resgatar uma experiência autêntica numa “sociedade totalmente administrada”» (Eric Bronner, 1994). [5] Para uma leitura similar à apresentada, remetemos para um texto nosso – Manuel Menezes (2001). [6] A sustentação desta tese, tem por base uma argumentação que procura apresentar, por um lado, «[...] a dialéctica do mito e do esclarecimento na Odisseia como um dos mais precoces e representativos testemunhos da civilização burguesa ocidental» e, por outro, que «[...] a submissão de tudo aquilo que é natural ao sujeito autocrático culmina exactamente no domínio de uma natureza e uma objectividade cegas» (1947: 15-6). Segundo a acepção de Peter Wagner, encontramo-nos face a uma leitura que associa de forma inextricável modernidade e capitalismo (confundindo-os) e onde o último é vislumbrado como o «[…] resultado de uma elaboração unidimensional da promessa do Iluminismo e, por isso, uma versão particular da modernidade que se tornou dominante» (2001: 45). [7] De acordo com os autores «nenhuma obra presta um testemunho mais eloquente do entrelaçamento do esclarecimento e do mito do que a obra homérica, o texto fundamental da civilização europeia» (1947: 55). |
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