Home arrow Edições arrow Edição nº8 arrow A (Des)Razão no Transcurso da Modernidade: Apontamentos Relativos à Teoria Crítica
A (Des)Razão no Transcurso da Modernidade: Apontamentos Relativos à Teoria Crítica Versão para impressão E-mail
Autor: Manuel Menezes   
01-Oct-2007
Índice
A (Des)Razão no Transcurso da Modernidade: Apontamentos Relativos à Teoria Crítica
Aufkläurung e desencantamento
O retorno ao mito
A indústria cultural
O "retorno do reprimido"
Referências bibliográficas

Pensamos que o exposto até aqui, facilita a compreensão de parte da tese explorada no discurso – «o mito já é esclarecimento»; faltando, agora, clarificar o porquê de os autores considerarem que o «esclarecimento acaba por reverter à mitologia», assistindo-se à absorção do primeiro pelo segundo. Não desatendendo as exegeses até aqui encetadas, facilmente se percebe que, com a emergência da modernidade, o trabalho que até aí vinha sendo desenvolvido pelos mitos passou a ser incumbência da razão pois, tal como nas pretensões subjacentes aos mitos, também, o «[...] esclarecimento tem perseguido sempre o objectivo de livrar os homens do medo e investi-los na posição de senhores» (Theodor Adorno et all, 1947: 19), ou seja, o aufklärung constitui, segundo a acepção dos autores, a via de que o ser humano se socorreu para intentar dominar a contingência originária desse mesmo medo. O primeiro trecho a ser percorrido, de forma a tornar tais pretensões plausíveis, era a «dissolução dos mitos, substituindo a imaginação pelo saber», ou seja, o que era um sinal da inferioridade do humano, deveria ser substituído pelo traço que o torna superior face ao envolvente – era esta a tarefa que, segundo a acepção dos autores, incumbia ao aufklärung. Passo esse que, num primeiro momento, transmuta a tese supra em algo paradoxal, visto, indiciar uma transubstanciação da razão em algo que a mesma, a priori, visava expungir na medida em que a razão «[…] se inicia pela vontade de expurgar as “imagens” em que se fundava o mito» (Bragança de Miranda, 2002). No entanto, esta primeira impressão esvanecesse-se a partir do momento em que, de acordo com Theodor Adorno et all (1947), a análise relativa à consubstanciação do processo permite destacar um tipo de razão que, ao procurar dominar a natureza com o fim último de possibilitar a sobrevivência, a auto-conservação do ser humano, acaba por se converte numa força irracional que domina não só a natureza (transformando-a num objecto a ser manipulado), mas também a humanidade[1], conduzindo, em última instância, à completa negação da liberdade humana e à sua não emancipação. Isto é, o aufklärung em vez de libertar o ser humano de uma «menoridade auto-imposta» (Immanuel Kant, 1784), exigiu, pelo contrário, a sua subjugação a uma ordem racional o que, por consequência, conduz a que os autores concebam «[…] o esclarecimento como a tentativa fracassada de es-capulir (ent-springen) dos poderes do destino» (Jürgen Habermas, 1985: 163).

De acordo com a argumentação presente no discurso, o retorno ao mito dá-se na medida em que a razão, para além de não se libertar das suas origens míticas, também, ela própria, acaba por se transformar numa espécie de mito. Pois, tal como os mitos patenteavam uma inconsciência do ser humano quanto à sua situação real na experiência, também, a razão, ao não promover a emancipação prometida (libertando o homem de uma leitura ingénua face ao mundo envolvente e da sua posição no mesmo), patenteia a emergência de indivíduos alienados – «o preço da dominação não é meramente a alienação dos homens com relação aos objectos dominados; com a coisificação do espírito, as próprias relações dos homens foram enfeitiçadas, inclusive as relações de cada indivíduo consigo mesmo» (Theodor Adorno et all, 1947: 40)[2]. Neste, como noutros discursos, o grande projecto de libertação face a ilusões várias acaba por culminar no niilismo.

A razão de ser de tal diagnóstico deveu-se, segundo a perspectiva dos autores, ao facto de o ideal racional de domínio da natureza inerente à razão, reflectindo o desaparecimento do sujeito reflexivo, ter impulsionado a subsunção da razão crítica[3] pela razão instrumental[4]. Um tipo de razão que, ao ser «usada como um instrumento universal servindo para a fabricação de todos os demais instrumentos» (Theodor Adorno et all, 1947: 42), acaba por se transformar num instrumento para a manutenção da dominação tornando a razão obsoleta. De acordo com a argumentação em análise, seria esta a forma racional predominante num mundo alienado, visto, aquela, reflectir a «[...] capacidade para seleccionar os meios que permitem atingir os fins desejados, independentemente das consequências que esses mesmos fins produzam, ou seja, nós usamos a razão como instrumento que nos guia em direcção aos nossos fins» (Curtis Bowman, 1996: 7; Jürgen Habermas, 1985: 159)[5]. O resultado deste processo é de fácil percepção – em vez da libertação prometida, produz-se a alienação do ser humano, a razão – transportando consigo uma componente instrumental[6] – trazia no seu seio a sua própria exclusão, a sua negação[7]. Alienação essa que, como iremos ver, só teria possibilidade de ser superada por intermédio da razão crítica.

A explicitação do conceito ou, melhor, o acentuar do trabalho negativo por ela exercido é-nos, então, apresentado por intermédio do que os autores denominam de indústria cultural – a panóplia de meios técnicos de produção e distribuição de obras de «arte» que se consubstancia como um reflexo da razão instrumental. As exegeses mediadoras do discurso, espelhando uma preocupação com o aumento do poder da mesma e, por consequência, com os potenciais efeitos negativos por ela produzidos nos media, procuram explicitar – analisando os casos do cinema e da rádio – o modo como se dá a regressão do aufklärung à ideologia. Sendo o primeiro observado no «[...] cálculo da eficácia e na técnica de produção e difusão» e, a segunda, por intermédio do seu esgotamento «[...] na idolatria daquilo que existe[8] e do poder pelo qual a técnica é controlada». Procurando justificar esta assertiva, analisam a pretensão (considerada nula) inerente aos produtos da indústria cultural «[...] de serem obras estéticas e, por isso mesmo, uma configuração de verdade» (Theodor Adorno et all, 1947: 16), ou seja, procuram justificar as diferenças existentes entre a «verdadeira arte» e as manifestações plasmadas pela indústria cultural no real, manifestações essas que, no quadro de uma perspectiva apocalíptica, traduziam a regressão do aufklärung e a elisão do sujeito e, em última análise, anunciavam «[…] um totalitarismo subtil produzido pelas novas tecnologias dos media, impondo uma visão positivista de um mundo totalmente administrado» (Bragança de Miranda, 1998: 64).




[1] Ao enunciarem a trasladação do domínio, da natureza para o ser humano, os autores procuram comprovar, em última instância, o totalitarismo presente na modernidade, visível nesse período tanto ao nível das ditaduras vigentes de direita como de esquerda.

[2] Na acepção de Robert Kurz, os autores da escola de Frankfurt explicitam a contradição presente na modernidade, ou seja, a promessa de libertação (por via da desmitologização), que conduziria à superação da própria dominação e, em consequência, à emergência da razão, acabaria por não se concretizar, visto que a modernidade «[...] não só conservou o programa da dominação objectivante da natureza, como também o agravou. Por meio do mercado, justamente, a dominação pessoal foi substituída por uma “dominação da reificação”, ou seja, não se superou a '”injustiça social”, que foi apenas objectivada pela mediação universal da concorrência a um grau de abstracção mais elevado do que antes» (1997). Anselm Jappe, também destaca este aspecto, assertoando que «para Adorno, toda produção material, ao ser dominação da natureza, é uma forma particular da dominação em geral, e como tal não pode ser portadora de liberdade. A dominação da natureza sempre foi uma libertação do ser humano de sua dependência da natureza, ao mesmo tempo em que introduzia novas formas de dependência» (1995).

[3] A sua preocupação prima correlaciona-se com os fins em si, com a sua qualidade e, neste sentido, questiona a racionalidade subjacente aos mesmos, se eles expressam as nossas necessidades e desejos mais profundos, os nossos anseios de liberdade (Curtis Bowman, 1996).

[4] Evidenciando um posicionamento crítico face a este tipo de leitura, Bragança de Mirandaassinala o facto de nos encontrarmos ante a uma crítica abstracta da razão o que, de per si, conduz a que na mesma a razão seja confundida «[…] com as formas concretas que ela assume historicamente, como ocorre com a razão instrumental» (1994: 83). Dentro deste quadro gostaríamos, igualmente, de fazer referência ao contributo de Pissarra Esteves, que chama à atenção para os perigos inerentes ao abandono da razão, i.e., embora dispensando a fé cega na mesma (ou, como o autor anterior assinala, é necessário reconhecer a «insuficiência da razão» na medida em que este não-reconhecimento – considerando o recurso à mesma como suficiente – deu azo a ilusões catastróficas), segundo este autor, qualquer projecto emancipatório tem necessariamente de se socorrer da razão, porque «[…] o futuro é uma questão sempre em aberto, não é antecipadamente ditado pelas chamadas “leis da história”, mas depende acima de tudo da vontade (contingente) dos homens» (Pissarra Esteves, 1998-b: 45).

[5] O traço instrumental da razão moderna, encontra-se no facto de a mesma «[…] pode[r] dizer muito sobre como fazer as coisas, mas, quase nada, sobre que coisas devem ser feitas» (Zygmunt Bauman,2001: 83).

[6] Embora num outro registro, segundo a acepção de Hannah Arendt, este é uma dos traços mediadores da modernidade, visto que, na mesma, «[...] desde o seu início até ao nosso tempo, encontramos as atitudes típicas do homo faber: a “instrumentalização” do mundo, a confiança nas ferramentas e na produtividade do fazedor de objectos artificiais; a confiança no carácter global da categoria de meios e fins e a convicção de que qualquer assunto pode ser resolvido e qualquer motivação humana reduzida ao princípio da utilidade; a soberania que vê todas as coisas dadas como matéria-prima e toda a natureza como “um imenso tecido do qual podemos cortar qualquer pedaço e tornar a coser como quisermos”» (1958: 373-4).

[7] Questionando-se sobre os motivos que conduziram os seus antecessores a uma radicalidade tal, que acaba por se transubstanciar numa leitura que impossibilita o vislumbre de qualquer centelha de razão na modernidade, Jürgen Habermas assume um posicionamento crítico, assinalando a «contradição performativa» que perpassa a argumentação dos autores frankfurteanos, contradição essa visível, em sua acepção, pelo advogar de que a razão instrumental compele à elisão da dimensão crítica da razão. Isto é, de acordo com Jürgen Habermas, a descrição da «[…] autodestruição da capacidade crítica [é encetada] de modo paradoxal, visto que no instante da descrição ainda tem que fazer uso da crítica que declarou estar morta» (1985: 170).

[8] Nesta acepção, a ideologia é concebida como sendo o meio justificativo do existente, do status quo, consequentemente, «o poder da indústria cultural enquanto ideologia é tal, que o conformismo substituiu a consciência» (Theodor Adorno, 1991).



 
Adicionar artigo a:Estes ícones permitem adicionar o presente artigo a redes de "social bookmarking".
  • slashdot
  • del.icio.us
  • technorati
  • digg
  • Furl
  • YahooMyWeb
  • Reddit
  • Blinklist
  • Fark
  • Simpy
  • Spurl
  • NewsVine