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Controlo e Descontrolo do Imaginário Versão para impressão E-mail
Autor: José Bragança de Miranda   
01-Fev-2007
Índice
Controlo e Descontrolo do Imaginário
A «cultura» tem origem num desdobramento originário da «natureza»
Um controlo mais absoluto
O problema está na postulação de que o «real» é o exterior

4. Todo o problema desta estrutura está na postulação de que o «real» é o absolutamente exterior, garantindo assim as estratégias de resistência. De facto, o real é recoberto pela matriz maquínica, pelo simulacro do simbólico, pela fantasmagoria do imaginário. Como a imensa baleia branca de Medisse, apesar das redes e dos arpões, é dele que provêm forças e intensidades de todo o género, que circula como falha dentro da máquina, mas também dentro de qualquer domínio que se apresente como consistente. Neste sentido, Hegel tinha razão ao descrever o moderno como especular. Mas se o simbólico e o regime da lei colapsaram dentro do imaginário, a conclusão é que o imaginário é a forma actual de ocultamento do especular. O imaginário é a forma do especular quando perdeu a sua unidade especulativa, enquanto imagem das imagens, que já era mais do que imagem, mas plena efectuação histórica de todas as sínteses perfeitas. Quando hoje falamos tanto de imaginário é porque o especular se ocultou sobre o heteróclito das imagens.

A dramatização da imaginação pelos românticos implicou uma crise do modelo que operava com base em divisões que opunham «real» e «irreal», corpos e imagens, etc. Era dessa estrutura que dependia a imaginação. Essa complementaridade desaparece, à medida que o imaginário predomina. Ora, a imaginação era uma certa promessa de outra vida dentro da vida que é a nossa, como o revela Beckett num texto importante, «imagination dead imagine», que não podemos analisar aqui e que começa assim: «No trace anywhere of life, you say, pah, no dificulty there, imagination not dead yet, yes, dead, good, imagination dead imagine»[1]. O mundo que se tornou no mundo da máquina, parece abolir a divisão originária que nos fazia irromper da Physis, tudo se naturalizando. Mas a persistência do especular é ainda um frágil eco de tal divisão, que se repete na relação às imagens que nos circundam. Beckett permite-nos colocar a hipótese de que cada imagem funciona, pontualmente, como toda a imagem que existe. Cada imagem é um pequeno grão de poeira no meio de uma imensidade de outros, e, ao mesmo tempo, uma imagem absoluta. Daí que para Beckett, qualquer imagem que com força mimetiza a de Deus, se torna absoluta. Esta imagem que se agiganta para mimetizar o mundo que organiza, repete-se infindavelmente, mas também nas suas variações mais maquínicas. Todas as divisões metafísicas tornam-se contínuos de uma série técnica que as faz variar em todas as direcções, rigidamente determinadas, mas aleatórias. Tudo se reduz a uma cinem ática, que é puramente arbitrária, mas sempre com sentido, enquanto esta imagem perdurar. Neste aspecto, trata-se de uma imagem que enquanto dura tem uma «eternidade»[2]. Mas qualquer imagem a pode ter, pois imediatamente ela constitui um «frame» onde é «armadilhado» (framed) quem dela se aproxima. Está em causa uma actividade alcançada por meios mecânicos, por uma fábrica que permanece desconhecida. Mas é verdade que só existem imagens, e que cada uma delas funciona instantaneamente como se fosse única, tal como a de Deus na medievalidade.

O simbólico subsiste enquanto mecânica de rarefacção das imagens, no momento em que se difundem em profusão, e em que tudo devém imagem. É por isso que cada uma delas ocupa, à vez, o lugar «central», funcionando como um «atractor». Mas semelhante ocupação cada vez dura menos tempo, tendendo para se tornar instantânea e performativa. A «morte» da imaginação tem a ver, justamente, com o facto de os possíveis estarem todos realizados, de tudo estar em estado de cansaço metafísico[3]. De apenas ser possível uma mera combinatória. Ora, o possível vem do mundo do «cálculo», não da imaginação[4]. A falha que circula do real vinda do real ocorre como acidente ou interrupção das dinâmicas maquínicas, mas também como plétora de forças, de imagens, engolfamentos provocados por excessos de todo o género. Alguns lamentam-se aqui de estarem submergidos pelo overflow of information. Se o simbólico emerge como matriz é porque as formas se tornaram na matéria da experiência contemporânea, com tipos, formas e designs ready-made. Chegados a este ponto terminal, não se trata de evitar a «forma», mas como diz Beckett num comentário a Comment c’est (1960) «...il aura une forme nouvelle telle qu 'elle admette le chaos et ne prétende pas que le chaos lui est étranger. Forme et chaos restent distincts. La forme devient une préoccupation parce qu'elle existe en tant que problème distinct de ce qu'elle exprime... Trouver une forme qui exprime le gâchis telle est maintenant la tâche de l'artiste»[5]. E de todos, na verdade. Mas para isso é preciso acabar com a forma que congelou o mundo, num processo sem desenlace, e repetitivo, que só parece vivo porque tem a aparente animação das máquinas cinemáticas.

Novas forças e intensidades estão à solta atravessando o «imaginário» que implodiu. E a resposta a elas já só pode ser mítica, como ocorreu na origem da nossa cultura, e como ocorre uma e outra vez em cada acto significativo. As imagens que vêm de todo o lado, em que tudo se transformou, não são abolíveis, nem rareficáveis apenas, elas têm de vergar-se ao trabalho da linha poética, tão bem descrita por Lezama Lima. Já não se trata de encontrar possibilidades ocultas, pois estas estão irremediavelmente lesadas pela combinatória, mas de algo mais radical. É preciso trabalhar a linha que as separa, a barra lacaniana, pois como dizia Lezama Lima «No hay nada más que el cuerpo de la imagen, y la imagen del cuerpo. La imagen al fin crea nuestro cuerpo y el cuerpo segrega imagen... Y lo único que puede captarlo es la poesía... Hay que llevar a la poesía a la gran dificultad, a la gran victoria que partiendo de las potencias oscuras venza lo intermedio en el hombre... Hay que volver al enigma... es decir, partiendo de las semejanzas llegar a las cosas escapotadas. Hay que volver a definir a Dios partiendo de la poesía...»[6].

Para isso é preciso atacar a nova estratégia especular que se confunde com imaginário, voltando uma outra vez, à origem sem princípio nem fim, onde tudo se origina, e acima de tudo à possibilidade de uma outra vida, mais livre. Esta possibilidade, está no começo e não no futuro. E é absolutamente imperativa. Como disse um dia Villiers: «Nous en sommes à l'âge mûr de l'Humanité, voilà tout. À bientôt la sénilité de cet étrange polype, sa décrépitude, et, l'évolution accomplie, son retour mortel au mystérieux laboratoire où tous les Apparaîtres s'élaborent éternellement grâce à... quelque indiscutable Nécessité...»[7].



[1] Cf. Samuel Beckett (1967), «Imagination dead imagine» in The complete short prose 1929-1989, New York, Grove Press, 1995, p. 182.

[2] Dada a aceleração e a serialização do «real» pelas máquinas das imagens, qualquer demora mimetiza a «eternidade»: «More or less long, for there may intervene, experience shows, between end of fall and beginning of rise, pauses of varying length, from the fraction of the second to what would have seemed, in other times, other places, an eternity. Same remark for the other pause, between end of rise and beginning of fall…». Op. ult. cit., p. 183.

[3] Num belo texto sobre Beckett intitulado ‘l’Épuisé», Gilles Deleuze vai distingir entre o simples cansaço e o esgatamento metafísico de Beckett: «La combinatoire est l’art ou la science d ’épuiser le possible, par disjonctions incluses. Mais seul l’épuisée peut épuiser le possible, parce qu«il à rennoncé à tout besoin, préférence, but ou signification»in Samuel Beckett, Quad et autres pièces pour la télévision», Paris, Minuit, 1992, p. 61. À luz do que afirmámos no etano, esta visão é um pouco piedosa a mais, pois de facto há uma forte dramatização por Beckett das figuras que se inscreveram maquinicamente no real e que não conseguem realizar-se, sem se diferirem permanentemente.

[4] A razão deste fracasso geral tem a ver com o «fim» não ter vindo. De que fim estamos a falar? Da «revolução», ou do «fim da história» tanto a peça Waiting Godot, como a intitulada Endgame são uma intensa refelxão sobre o que significa não ter chegado ao fim algo que estava prometido teologicamente ou metafisicamente.

[5] Samuel Beckett citado por Deirdre Bair (1979), Beckett, Fayard, p. 467.

[6] José Lezama Lima, Oppiano Licario, Ciudad de México, Ediciones Era, 1999, p. 195.

[7] Cit in Remy de Gourmont, Le livre des masques. Portraits symbolistes, gloses et documents sur les écrivains d'hier et d'aujourd'hui, Vo. I, Paris, Mercure de France, 1896, p. 96.



 
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