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Edição nº3
Cultura, Media e Espaço - A instalação da experiência e das artes | Cultura, Media e Espaço - A instalação da experiência e das artes |
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| Autor: Maria Teresa Cruz | |||||||
| 02-Abr-2007 | |||||||
Página 1 de 5 Palavras-chave: media espaço cultura contemporânea tecnologia Resumo Clique aqui para fazer download do texto completo em PDF. Da Física à Metafísica, a nossa era parece inclinar-se a pensar e a problematizar privilegiadamente o espaço, ao mesmo tempo que fala de uma espécie de usura do tempo ou de fim da história. Da realidade física à realidade social, política e económica, à cultura e às artes, a categoria de «espaço» tornou-se indispensável para descrever as transformações maiores que estão aí em curso. De tão presente, o termo adquire uma crescente ambivalência, que obscurece quase tanto como ilumina, não podendo, no entanto, deixar de ser seriamente tomado em conta na sintomatologia do presente. Em 1974, em Espèces d’Espaces, já Perec se referia a esta ambivalência, visada também, mais recentemente, numa longa enumeração do autor de Cyberspace: First Steps (1991), Mikel Benedikt: “Espaço positivo, espaço negativo, espaço Barroco, espaço Moderno, espaço urbano, espaço doméstico, espaço arquitectónico, espaço pictórico, espaço abstracto, espaço interior, espaço sideral, espaço secular e espaço sagrado, espaço fásico, espaço paramétrico, espaço cromático, espaço psicológico, auditivo, táctil, espaço pessoal e social... que qualificam exactamente todos estes adjectivos?”
As muitas indicações que a contemporaneidade dá desta prioridade problemática do espaço tornam-se tanto mais instigantes quanto a modernidade parece ter decorrido, por sua vez, sob o signo do tempo. A transformação da experiência, que a modernidade pensava radicalmente no tempo e na história, pensa-a a contemporaneidade numa relação intrínseca com o espaço, em ideias como mundialização, globalização, ciberespaço, telepresença, etc... termos que parecem abalar tão fortemente o dado e o existente, como o abalavam as velhas ideias de revolução ou de progresso. De facto, à medida que crescem as alusões a esta transformação do espaço, crescem também as alusões a uma crise da noção de realidade (invocada por termos como desrealização, hiperrealidade, artefactualidade ou simulação). Se a era da temporalidade e da história foi uma era da experiência e da confiança no seu poder transformador, o actual centramento no espaço, não nos propõe uma menor investida no mundo. Na verdade, a atenção ao espaço parece conter uma espécie de radicalização do próprio sentido da experiência, nomeadamente da relação ambivalente que toda a experiência mantém com a própria temporalidade, isto é, com, com o passado e com o futuro, com o adquirido e com o novo. Para os modernos, a experiência é, não apenas a valorização e a sedimentação do adquirido, mas a abertura de uma ontologia dos possíveis e, também por isso, um tempo de inovação e de acontecimento. Quanto ao contemporâneo fim da história, em que não se espera já a revolução ou o acontecimento, e em que se tornou mesmo difícil imaginá-lo, sonhá-lo e projectá-lo, nunca se terá falado tanto em possíveis, com o quase sentimento de que é possível eliminar o próprio impossível. A era em que tudo parece ser possível, sem sabermos bem o que esperar, é certamente uma era de profunda transformação da ideia de experiência e da ontologia dos possíveis que a funda, com implicações maiores no que entendemos por realidade.
As últimas décadas trouxeram ao debate filosófico e intelectual inúmeros sintomas disto mesmo e a intuição muito generalizada de uma espécie de radicalização ou quase inversão desta ontologia, mediante a qual o possível deixaria de ser uma modalidade do real (aquela que não está ou não está ainda realizada), para ser o real uma modalidade do possível[1]. A História apresenta-se assim enigmática, por mais congeminações que façamos sobre o futuro, sem ordenação a um acontecimento ou teleologia, ao mesmo tempo que sugere, nesse deserto de fins, uma vasta planície de possibilidades, uma land of oportunity, como sonho americano que provavelmente é, se é ainda o sonho ou a conspiração de alguém. Um vasto espaço de virtualidade é, na verdade, o que nos oferecem os tempos, importando compreender a que experiência nos destinamos nesta aventura em que as possibilidades e as promessas da história parecem explanar-se em espacialidade. [1] Bernard Stiegler comenta esta espécie de inversão na relação entre a categoria do real e do possível do seguinte modo: «Ao contrário do ideal de constatividade da ciência clássica, a técnica, cuja essência é a invenção, é sempre performativa (...) faz aparecer um novo que transforma o ser. (...) Enquanto tecnociência a ciência torna-se ela própria performativa. (...) Não é já o possível que se torna uma modalidade do real. É o real que se torna um ponto de vista (actual) sobre o possível (...) O possível rompe então com o real, a ciência explora todas as possibilidades sem se deixar empatar pela idealidade do ser. É o que descrevem tanto Nietzsche, como “vontade de poder”, como Husserl, como “crise das ciências”, e Heidegger, como “Weltbild” e “Ge-stell”» (STIEGLER, Bernard, «La technoscience: entre découverte de l' être et invention du possible», in B. Libois e A. Strowel (Ed.), Profils de la création, Bruxelles, Publications des Facultés universitaires Saint-Louis, 1997).
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