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DA CULTURA VISUAL DA MEDICINA À CULTURA MÉDICA DA ARTE António Fernando Cascais |
A ideia de uma cultura visual da medicina assenta em duas teses fundadoras de Erwin Panowsky e de Michel Foucault, segundo as quais, respectivamente, desde o Renascimento a teoria das proporções humanas foi abandonada pelos artistas e teóricos da arte em favor dos cientistas e a medicina clínica moderna advém de uma alteração da relação entre o visível e o enunciável que criou a possibilidade de uma anátomo-clínica, no século XIX. A cultura visual da medicina consubstancia o devir-arte da ciência e o devir-ciência da arte. Com efeito, a medicina moderna é conduzida desde o seu início por uma pulsão escópica que ambiciona a transparência total dos corpos e que constitui uma das expressões do ocularcentrismo ocidental. Na cultura visual da medicina é possível destrinçar três grandes épocas, a da representação anatómica renascentista, a da radiografia, da fotografia e da cinematografia, e a das tecnologias informáticas contemporâneas de imagiologia médica, regidas por diferentes lógicas da imagem — formal, dialéctica, paradoxal —, e que constituem outras tantas concreções da matriz escópica da experiência moderna. A omnividência perseguida pela cultura visual da medicina, ao visar submeter o real a um regime de visibilidade, acaba por o metamorfosear em imagens que, em retorno, nos vêem. |