RCL 31: Imagem e vida32 Ficções Julho 2003

Organizado por Paulo Filipe Monteiro

 

A VERDADE DA MENTIRA
O museu como dispositivo ficcional na obra de Marcel Broodthaers

Miguel Leal

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O esvaziamento das lógicas de ruptura e transgressão com que as vanguardas artísticas se tiveram que confrontar, em especial a partir da década de 60 do século XX, obrigou-as ao questionamento profundo dos mecanismos institucionais reguladores da norma e do desvio. É o caso das heterotopias museológicas que puderam ser interrogadas a partir das suas capacidades efabulatória e ficcional. É no centro mesmo deste debate que, em 1968, Marcel Broodthaers abre a Section XIXème Siècle do seu Musée d’Art Moderne, Departement des Aigles. A complexidade deste projecto, que irá durar com diversas configurações até 1972, abre uma discussão sobre a própria ontologia da arte num momento de aparente crise.
Neste artigo procurámos reflectir sobre a razão da escolha de um dispositivo ficcional para a construção da sucessão heterogénea de objectos e acontecimentos que constituem esse Musée d’Art Moderne, buscando assim na própria inquietação e no movimento imprevisível da narrativa ficcional as respostas para a compreensão dos lances de Marcel Broodthaers.