RCL 31: Imagem e vida32 Ficções Julho 2003

Organizado por Paulo Filipe Monteiro

 

A AUTO-BIO-GRAFIA COMO MÁQUINA ANTROPOMÓRFICA DE ESCRITA

Maria Augusta Babo
Departamento de Ciências da Comunicação, Universidade Nova de Lisboa

English

Uma análise do termo permite perceber o carácter compósito da denominação literária — autobiografia — e entendê-la como máquina antropomórfica, salientando a existência de um dispositivo narrativo, isto é, todo um conjunto de procedimentos figurativos da ordem do imaginário, inserido no quadro de uma articulação narrativa, numa sintaxe da causalidade e das suas finalidades, e um dispositivo enunciativo configurador da subjectividade discursiva.
Mas a máquina antropomórfica, da ordem do logos, emerge de uma organização complexa do bios que, por sua vez, articula uma vida orgânica, a vida interior ou vegetativa, considerada a vida propriamente animal, com uma vida voltada para o exterior, em relação. Esse limiar entre o animal vegetativo e a ordem do humano é, porém, uma linha de clivagem que passa no interior do próprio homem e que recalcou o animal como resíduo.