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DA INTERTEXTUALIDADE Maria Augusta Babo
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Este texto pretende pensar a citação enquanto prática arcaica de repetição e daí questionar a intertextualidade como perspectivação da escrita e da leitura. |
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1. A escrita como cópia. «A escrita que estava gravada naquelas tábuas era da mão de Deus, que ali tinha escrito os seus dez mandamentos, e tinha-os escrito duas vezes para marcar a sua importância ( )» Êxodo, XXXII, 16
Tratar a textualidade a partir de uma abordagem do texto entendido como trama ou tela é não só fundamental como actualmente óbvio. Essa abordagem permite pensar o texto nas relações que ele mantém com os que o precedem, mas ainda como escrita que se revela reescrita ou leitura. A intertextualidade como conceito operacional de análise propicia uma arqueologia do texto que não se identifica com uma história da literatura ou uma crítica das fontes e que aqui importa mencionar. O texto-escrita releva pois de uma prática específica a perceber numa genealogia do escrito, das «escrituras». Por seu lado, a citação, modalização particular do regime intertextual da escrita, deverá assumir as suas raízes nessa mesma arqueologia a determinar. Para já, o que essa genealogia da escrita permite perceber, se nos reportarmos à sua génese hebraica, é justamente o seu carácter de lei divina. A escrita toma corpo como gravação da palavra de Deus, sendo que essa palavra, portadora do Sentido, da Lei, ao inscrever-se na matéria, as Tábuas da Lei, torna-se palavra total, verdade eterna e inabalável. A escrita ganha aí a sua dimensão de verdade eterna, de texto sagrado. A palavra materializa o sentido total grava-se na memória como dito eterno e pleno. E todo o re-dito, para a não profanar, se limitará à imitação, ou cópia, mas nunca se impõe como dizer-outro. Tal como Moisés, que perdeu o dom da palavra desde que Deus lhe falou, o escritor, o escriba, é aquele que, anulando-se como sujeito da escrita, se limita à gravação, à cópia. No sentido judaico, o escriba era precisamente aquele que copiava à mão, que imitava ou reproduzia os textos sagrados, daí que o termo designe também o condutor ou inspirador do judaísmo legalista, já que a escrita se limitava à cópia de manuscritos sagrados e, portanto, à fundamentação do sentido da Lei. O copista ou escriba manteve e afirmou essa função primeira de gravar na história os textos públicos, legais ou litúrgicos. O texto sagrado ou legal remete, pois, para uma escrita que o reproduz. Nesta medida, o acto da escrita caracteriza-se por ser aparentado à memória, mas ainda por estar sujeito à palavra total, ao Dito. Daí que Derrida considere a escrita como: «violence de loubli. Lécriture, moyen mnémotechnique, suppléant la bonne mémoire, la mémoire spontanée, signifie loubli»1. O Livro aparece, assim, como símbolo da lei divina e torna-se um culto, na Idade Média, ao contrário da Antiguidade grega que, segundo Kristeva, desprezava a escrita e a leitura, por oposição à oralidade e ao diálogo, nomeadamente com Platão2. A escrita institui-se, assim, como censura ou morte. A escrita é o já escrito, no sentido em que é já do passado e, ainda, no sentido em que, submetida à censura, ela se inscreve na cópia do Texto: «Deus, Palavra e Escrita reúnem-se no seio do cristianismo: para toda a cultura cristã o livro seria o lugar do discurso autoritário, do Dizer-do-Pai»3. E se a escrita da modernidade consegue quebrar este efeito de reprodução, de comentário, nomeadamente com o aparecimento do romance, ao introduzir na escrita a oralidade e a narrativa, ela ficará, no entanto, devedora e serva do vestígio que a diferencia, «la trace instituée»4. Reprodução ou repetição, o texto como cópia dá lugar às falhas, ao erro que o subverte, provocando distorções de sentido, sintomas daquilo que, na repetição, difere. O comentário é, justamente, a distorção da cópia, o retorno à letra, a elaboração do sujeito da escrita. A cópia de memória pode encarar-se, assim, como a repetição que abre brechas, por onde o recalcado retorna, isto é, por onde o sujeito de escrita se fabrica. E, nessa medida, todo o texto se lê, também, na sua genealogia, quer com textos que lhe são anteriores e exteriores, que ele repete e transforma, quer, ainda, com o «texto», história do sujeito, que perdida ou esquecida revém. O que quer dizer que a escrita não é gravação no espaço virgem do seu suporte mas, sim, leitura do texto apagado que a sustenta. O que implica que qualquer produção significante, qualquer escrita, seja, à partida, não só operação de leitura mas, ainda, operação de revelação. A reprodução é, portanto, condição da escrita, do «scriptible», aquilo que se dá a escrever. Toda a escrita se revela reescrita assim como a cópia se revela, inevitavelmente, infiel. «Toute reprise dun texte antérieur est une modification en sol (voir Borges), et il semble que se soit le travail même de la modification qui produise lindividualité dun texte»5.
2. Da intertextualidade como tessitura da escrita. «Le labyrinthe est, dans le texte, un réseau de citations au travail. Tout cela a lallure dune énigme: quest-ce que je travaille et qui me travaille à la fois?» A. Compagnon Olhar o texto na perspectiva de uma produção constantemente distorcida da cópia ou na reelaboração infinita dos textos que o precedem é desviar a textualidade para a inter-textualidade de que Bakhtine lançou os alicerces, com o conceito de dialogismo6. O dialogismo consiste na relação inter-discursiva que se cria em todo o enunciado. O princípio da intertextualidade, que vem conferir ao carácter dialógico um sentido mais alargado, sublinha na escrita o seu estatuto de teia e permite olhá-la, não na sua linearidade, mas na verticalidade, já que este conceito define o texto como sendo um mosaico de citações, absorvidas e transformadas7. É, portanto, de transposição que se trata. Qualquer texto se coloca, face aos outros textos, numa relação intertextual, pois define-se como permuta e reagrupamento de textos outros, formando o espaço da citação, do cruzamento ou da negação contestação de textos anteriores. Através deste conceito introduzido por Kristeva, após a tradução e o comentário dos textos de Bakhtine sobre o dialogismo, correntes, senão nomes, fizeram avançar propostas que enquadram, hoje, as teorias do texto. Genette, como Todorov ou, ainda, Riffaterre são autores que tentam novas apologias do texto e novos posicionamentos da análise, operando o questionamento dos géneros literários à luz do conceito de intertextualidade e criando categorias dele decorrentes, como a de arquitexto, hipotexto, etc. Mas mais do que essa visão taxinómica, tentativa de «arrumação» dos textos em categorias ou novos géneros, o que este conceito trouxe como contributo a uma noção nova de textualidade foi o seu carácter de tecido fabricado a partir do entrelaçamento de textos vários, como, por exemplo, o texto social. A noção kristeviana de ideologema remete, justamente, para essa reestruturação do texto social no texto. «Lidéologème est cette fonction intertextuelle que lon peut lire matérialisée aux différents niveaux de la structure de chaque texte, et qui sétend tout au long de son trajet en lui donnant ces coordonnées historiques et sociales.»8 A análise intertextual confere, pois, ao texto e à escrita a sua dimensão de palimpsesto, metáfora aliás empregue por Genette para designar essa sobreposição de textos: «cette duplicité dobjet, dans lordre des relations textuelles, peut se figurer par la vieille image du palimpseste, où lon voit, sur le même parchemin, un texte se superposer à un autre quil ne dissimule pas tout à fait, mais quil laisse voir par transparence»9. A esta metáfora se vem juntar uma outra, barthesiana, aqui já empregue, a de tecido ou tessitura que, independente da noção de intertextualidade, para ela remete, no entanto Para além de uma nova dimensão conferida ao texto, este conceito permite, ainda, um questionamento da crítica das fontes que fundou e ainda percorre a clássica história da literatura. Ora o que aqui se coloca é a detecção dos mecanismos de fabricação do texto, tanto no sentido da desconstrução da imagem tradicional de autor como da que se lhe sobrepõe, a de leitor. Deslocamento que opera na passagem de uma crítica das fontes, história dos autores, para o objecto texto e os seus processos de produção-leitura. A noção de autor é, como vimos, uma concepção recente de pertença ou propriedade dos textos, daí decorrendo, nomeadamente, a interdição do plagiato, considerado uma violação dos «direitos de autor». Barthes aponta este estatuto recente conferido ao autor: «lauteur est un personnage moderne, produit sans doute par notre société où, au sortir du Moyen Âge, avec lempirisme anglais, le rationalisme français, et la foi personnelle de la Réforme, elle a découvert le prestige de lindividu, de la personne humaine»10. Face ao texto entendido nesta perspectiva, a noção de autor perde a sua pertinência para ser substituída pela de sujeito do texto, o nome próprio que advém de uma configuração específica do lugar de sujeito no processo de significância; isto é, um nome é sempre e em última análise já um texto, ou o nome de um texto, de uma configuração específica de textos. Como tal, o texto é uma malha particular, polifónica, de citações, de transposições, por onde o escritor «ne peut que limiter un geste toujours antérieur, jamais originel, son seul pouvoir est de mêler les écritures, de les contrarier, les unes dans les autres, de façon à ne jamais prendre appui sur lune delles»11. O sujeito de escrita é, por oposição ao autor, aquele que se escreve após a morte do nome, isto é, o que requer uma despersonalização prévia para que a linguagem possa falar-se, para que a multiplicidade de textos/citações e o trabalho neles operado advenham. Do mesmo modo, o estatuto de leitor é, ele também, questionável. Sujeito que, numa simbiose com o texto, ao fabricá-lo no acto de leitura, se fabrica enquanto sujeito do texto. Cada leitor é sujeito de escrita tal como este último é sempre já um leitor «em processo», pois que a escrita, ao participar da intertextualidade, se revela como reescrita, uma dada configuração da leitura. A citação, como modalidade específica da intertextualidade, vai permitir pensar esse entrelaçamento de textos num outro, as interpelações que os textos e as escritas se fazem mutuamente e o posicionamento dos sujeitos.
3. A citação: fundamento primeiro da textualidade. «Ce qui importe, ce nest pas de dire, cest de redire et, dans cette redite, de dire encore une première fois» M. Blanchot, in Lentretien infini O termo «citar» tem uma significação etimológica diversa da do seu uso actual. Ele indica uma ordem, remete para uma injunção de comparecer perante a justiça para depor ou testemunhar. «Citer, cest convoquer: les sénateurs, les juges, les milices ( ) au terme de la comparution, cest encore la citation quon trouve. Le verdict nest que la production dune citation opportune, celle dont la lettre peut tuer. Dernier mouvement.»12 A citação é, nos seus primórdios, um acto linguístico de testemunho, mas também um acto de legitimação que autentica a verdade do discurso. É no seu aspecto legitimador que a citação pode funcionar como a própria performatividade enunciativa. Citar torna-se assim o discurso da autoridade. A prática da justiça é feita de citações da Lei. Citar implica, no entanto, uma estratégia dupla no discurso; o juiz recorre à Lei, citando-a, para pronunciar o veredicto e, simultaneamente, ele esconde-se por trás da Lei para impor a sua própria interpretação da mesma. É precisamente aí que o fenómeno da citação faz sentido, ou melhor, foge ao Sentido. Se, por um lado, a citação anula no texto o sujeito de enunciação que, ao apagar-se, deixa que o «outro» se inscreva no texto, por outro lado é nessa manha ou disfarce que ele se revela. No caso do discurso da justiça, «cest sous le couvert de la Loi que le juge se prononce dans un jeu complexe où, énonçant le verdict, il nest plus lui même la Loi et où cependant cest bien lui qui est chargé de faire se rencontrer la contingence complexe de lévénement criminel et lintangible permanent de la Loi»13. Do mesmo modo, em qualquer texto esta dupla posição do sujeito se verifica. Mas, para além de uma análise da citação nos seus aspectos de produção e desvio significantes, ela deve ser encarada, primeiramente, como processo de leitura já que ela é sempre processo de apropriação e de absorção. Para A. Compagnon14, a primeira forma de citação encontra-se já no acto de sublinhar. A leitura, neste sentido, é uma forma de adesão ou apropriação do texto. O jogo de apropriação e repulsa que constitui o acto de ler, confronto de um sujeito e de um texto, leva a que, face ao texto, o sujeito deseje co-assiná-lo, apropriando-se do dito, ou o rejeite, anulando-o, muitas vezes até, em qualquer dos casos, produzindo um comentário à margem. Sublinhar é, portanto, ler, mas também, reescrever. Despedaçar. Citar é estilhaçar o todo. Citar integralmente um texto seria uma apropriação abusiva ou utópica, cópia ou plagiato, o desejo de que fala Borges de escrever, na íntegra, e pela primeira vez, o livro já escrito. Citar é, talvez, o único «roubo» consentido ou com sentido: uma repetição comentada, um confronto entre sujeitos. Como acto de leitura a citação integra-se, pois, numa operação de corte e de transposição; como acto de escrita, ela opera uma repetição do já escrito e uma reinserção num novo contexto. O fenómeno da citação é, por excelência, aquele que melhor nos permite a abordagem do texto intertextual, manifestando a dupla produção escrita/leitura. Enquanto leitura a citação aparece, assim, como solicitação do texto à repetição. O que eu cito é aquilo que o texto primeiro me solicita, me convida a retirar e me compele a repetir. Citar torna-se um produto da excitação operada previamente no texto-leitura. Mas, ao ser reescrita, a citação manifesta uma incitação, uma inserção a formar de novo texto ou sentido. Como incitação, ela é mais do que pura reprodução porque ao repetir-se cria um excesso significante. Mais do que repetição de sentido, ela instaura o sentido da repetição, isto é, a «mais valia» do sentido primeiro. Enquanto fenómeno intertextual, a citação, que poderia ser considerada à partida o grau zero da relação interdiscursiva, dado que o texto primeiro não sai maculado, revela-se, apesar disso, como um processo mais complexo. O texto trabalhado pela citação, e que a trabalha, é um texto que releva da interpretação. Citar, como traduzir, é transposição de registo, de discurso ou de língua. A citação, enquanto repetição, não fixa ou fecha o sentido mas abre-o à significância através da criação de um espaço intervalar por onde o não-dito se lê, se marca. Assim, a citação não pode ser entendida como simples fenómeno de imitação, mas acarreta, inevitavelmente, ao reproduzir-se, uma perturbação do sentido. Ela é excrescência de um nome outro no texto próprio. E se essa integração poderia funcionar como identificação, o que se verifica é, antes, uma desmultiplicação da identidade, a emergência da alteridade no texto. Platão deu-se conta do «enjeu» da citação, ao condená-la como processo mimético de repetição. Não tanto por relevar da representação mas por ser imitação da representação, isto é, cópia da cópia. A citação é por ele considerada um acto manhoso e enganador. Contrariamente às «boas imagens», cópias da ideia, a citação participa das «más imagens», os phantasmata já que não são representação da ideia mas representação do discurso que, por seu turno, é já representação. Platão condena-a porque ela é libertadora dos sujeitos da enunciação. O mesmo não acontece com a «maxima sentencia» medieval, citação incontestável e incontestada que surge como afirmação divina. A laicização da «maxima sentencia» ou «palavra de Deus» tem como substituto o provérbio proveniente do consenso universal dos homens. As máximas e provérbios são testemunhos sem testemunhas, anónimos, que citados no discurso não confirmam tanto verdades como consensos sobre determinadas afirmações. Apesar de a citação poder funcionar no discurso como confirmação de valores consentidos ou consensuais, ela não deixa de formar, no entanto, uma rede de ressonâncias a deixar resto ou rasto, a criar dissonâncias. No complexo polifónico da intertextualidade, a citação instala, pois, a perversão do sentido ou o espaço que o nega, interdito. Nessa medida o jogo da citação pode, em última análise, produzir efeitos semelhantes ao jogo da paródia que, etimologicamente, significa cantar ao lado, noutro tom. O texto paródia, tal como o texto citação, consiste na transposição de um texto de um registo nobre para um registo vulgar. A citação, ao criar, mais do que ressonâncias, dissonâncias, institui-se como texto paralelo ou paródico, como texto outro. Enquanto repetição ela é sempre retorno do mesmo, parafraseado ou parodiado, a fazer sintoma.
Notas: 1 J. Derrida, De la grammatologie, Paris, Minuit, 1967, p. 55. 2 J. Kristeva, O texto do romance, Lisboa, ed. Horizonte, 1985, pp. 154-156. 3 J. Kristeva, Op. cit., p. 157. 4 J. Derrida, Op. cit., p. 68. 5 A. Chevalier, «Le détournement des sources», Revue des Sciences Humaines: La Citation, Lille III, N.º 196 (4), 1984, p. 79. 6 T. Todorov, M. Bakhtine, Le Principe dialogique, Paris, Seuil, 1977, p. 98. 7 J. Kristeva, Semeiotiké, Recherches pour une Sémanalyse, Paris, Seuil, 1976, p. 146. 8 J. Kristeva, Ibid., p. 114. 9 G. Genette, Palimpsestes, Paris, Seuil, p. 451. 10 R. Barthes, Le bruissement de la langue, Paris, Seuil, 1984, pp. 61-62. 11 R. Barthes., Ibid., p. 65. 12 In Prefácio a La Citation, op. cit. 13 Cf. J.-P. Guilhem, La Citation, op. cit. 14 In La Seconde Main, Paris, Seuil, 1980, a que este texto recorre, já que toda uma tese sobre as implicações significantes da citação aí se desenvolve. |