rcl01a.gif (10925 bytes)1 As máquinas censurantes modernas Março de 1985

Organizado por Adriano Duarte Rodrigues e Maria Augusta Babo

 

MUDANÇA VIGIADA NO DISCURSO DA IMPRENSA

João Maria Mendes

O quadro geral de recessão em que se move o discurso jornalístico da Imprensa portuguesa acentuou as censuras exercidas, a partir do exterior, sobre redacções onde volta a ser dominante «o terror do novo». Mas este facto, real, não deve fazer-nos esquecer que a prática do jornalismo é uma prática em si mesma censurante, cuja inércia transporta, permanentemente, um poderoso desejo de submissão perante os códigos de significação do real mais directamente dependentes do «senso comum»… e dos poderes.

 

A censura prévia continua a ser hoje evocada por jornalistas que com ela tiveram de viver, em alguns casos durante dezenas de anos. Essa evocação realiza no caso português uma dupla performance: por um lado, constitui-se como repetição de um exorcismo tido como eficaz, celebra metonimicamente a mudança de regime e manifesta negativamente o desejo de uma identidade mal conhecida, a do «jornalista liberto da censura». Por outro lado, e curiosamente, a evocação é ela própria censurante, na medida em que nos impede de tomarmos conhecimento de que a censura prévia, essa «iníqua polícia do espírito», não é o único modelo de censura.

Na melhor das hipóteses, o novo-riquismo democrata que predomina hoje entre os agentes da informação define como heranças da censura prévia certos comportamentos preponderantes da hierarquia corporativista do sector, e, agregando-os por semelhança, certos abusos do mecanismo de exclusão na selecção do que é noticiável. Este último aspecto leva, por aproximação, à crítica, formulada geralmente em termos éticos, da ordem internacional da informação, hegemonizada por um número muito limitado de empresas.

Hoje é de bom tom, entre os profissionais da informação, exibir uma consciência relativamente clara destes últimos factos. Mas parecem pertencer ao domínio do desconhecido outros factos que relevam igualmente do censurante e que integram a pr6pria estrutura da informação: eles dizem respeito, por um lado, à natureza do texto noticioso, e por outro, à lógica a que obedece, através de sucessivos actos de sujeição voluntária e assumida, cada experiência jornalística globalmente considerada (um novo jornal que se cria, por exemplo).

Refiro-me ao desejo de censura que marca, em cada neófito, a entrada no universo sobrecodificado dos produtores de informações, a lenta e persistente legitimação de um conjunto de normas e de obrigações narrativas interiorizada por cada profissional ao longo da sua experiência, e à esmagadora sedução que a imitação dos códigos dominantes significa para cada redacção (entendida no sentido técnico de conjunto de jornalistas trabalhando com vista à reprodução de determinado órgão de informação).

Vale a pena reflectir – desenvolvendo esta última referência sobre o que a organização de conteúdos de uma edição, do ponto de vista das suas partes componentes e do ponto de vista da ordem da «entrada em cena» destes, significa de adesão voluntária a uma norma, empiricamente tida como inamovível e suposta satisfazer um quadro constante de necessidades de informação:

Chamamos quadro editorial, exactamente, ao modo como cada jornal (tomemos apenas, para simplificarmos os objectos em análise, os diários e os semanários) escolhe e designa os seus conteúdos, os hierarquiza e os apresenta em página. O quadro editorial de um jornal exprime, assim e a um tempo, o que para si fundamentalmente constitui o real noticiável, e o seu modo especifico de o conceber enquanto montagem de atracções». Não confundamos quadro editorial com maquette: esta resolve expressões gráficas, não selecciona conteúdos. E se uma maquette exclui conteúdos, o que pode acontecer em jornais rigidamente organizados do ponto de vista gráfico, esse «defeito» não lhe é imputável: o erro deve-se nesse caso à incapacidade dos responsáveis de obrigar a maquette a adaptar-se aos imprevistos que furam a norma do quadro editorial.

O paradigma do quadro editorial é, por exemplo, uma figura composta de opinião nacional, fait-divers nacionais, política internacional, fait-divers internacionais, ensino e educação, saúde, desporto, economia, questões sociais envolvendo trabalho e sindicalismo, cultura, espectáculos, passatempos… Esta partilha da realidade, geralmente explícita, tem funcionado como matriz de satisfação de necessidades supostas (o jornal julga saber que o leitor espera ser informado de modo continuo sobre estes diferentes items), e mostra uma grande capacidade de resistência à mudança.

Esta série não se pretende exaustiva nem dá, obviamente, conta da variedade de conteúdos que um leitor habitual de imprensa encontraria ao inventar «secções» do seu jornal. Mas ela significa a norma: ela exprime, na imprensa «de grande expansão», um modelo de sedimentação da aventura jornalística que se afirma capaz de subsumir as componentes do real noticiável de modo «total».

Ora, o facto para que vale a pena chamar aqui a atenção é o de que este real «totalmente» contado não resulta senão de uma soma de partes empírica e arbitrariamente escolhidas para formarem, justapostas, um simulacro de totalidade.

Ao seleccionar o real que vai narrar, e ao escolher o modelo narrativo em que o vai exprimir, um jornal – ou mais precisamente, quem nele detém a responsabilidade editorial – reduz a infinitude de realidades e de significações a um pequeno conjunto que as representa. Este trabalho produz um sem número de exclusões, e comporta uma censura permanente. Ele é vívido como «natural» e «inevitável»: naturalidade e a inevitabilidade desculpabilizam e legitimam. O jornal pode calar sem pecado. Uma das suas lutas constantes consiste, aliás, na conquista – sempre inacabada – do direito à auto-absolvição sem arrependimento.

Mas este movimento é solidário do que é efectuado pelo jornalista no seu trabalho individual: a tirada de notas, a selecção dos materiais recolhidos, e finalmente e sobretudo as normas obrigatórias de construção da narrativa noticiosa, exprimem a situação contraditória de um sujeito da enunciação orientado pela vontade de verdade, por um lado, e por modelos de eficácia comunicativa que só obedecem à sua própria lógica, por outro.

Com efeito, a experiência continuamente vivida por qualquer profissional da informação que, observado um acontecimento complexo e ouvidas fontes de informação subsidiárias, selecciona as suas notas e se prepara para produzir um texto disciplinado e coerente do ponto de vista dos objectivos da comunicação, significa para ele a adesão voluntária a uma determinada ordem discursiva institucionalmente imposta. É por isto que se torna legitimo falar, a respeito deste movimento, de um «desejo de censura»: o produtor de informação constrói um texto violentamente condicionado por uma estrutura suposta eficaz na «recondução do efeito de realidade». Sabe que não deverá escapar – e não deseja escapar – ao modelo universalmente venerado do lead e da pirâmide invertida. Suprimirá todos os dados susceptíveis de desviar o futuro leitor do conjunto de elementos narrativos «essenciais». Mas, melhor e mais importante, só redigirá frases curtas, preferirá os sinónimos com menor número de caracteres, reduzirá o seu vocabulário às significações de base da sua língua materna (pôde assim falar-se, a propósito das normas de redacção de um conhecido jornal de Paris, do «francês das mil palavras»), abolirá do seu texto toda a polissemia, preferirá o ponto final e a vírgula a formas mais complexas de pontuação, produzirá – mesmo artificialmente – parágrafos destinados a decompor em curtos «tempos» a sucessão de movimentos de leitura. Com o tempo, e com a sedimentação de algumas turbulências iniciais, ele saberá usar ou evitar a palavra que «enche» ou que «esvazia» o real narrado, de acordo com uma segunda adesão, mais explicitamente ideologizada, às vantagens do império do senso-comum.

Um sem número de vozes, na rede anónima do jornalismo internacional, pontifica a seu favor. As regras que o neófito interiorizou ao longo de uma deriva empírica de iniciação tão ampla e notoriamente reconhecidas como únicas. A instituição genérica do jornalismo internacional é caucionada por um grande número de «sociedades de discurso» que policiam e regulam, benevolamente, o exercício da produção profissional de textos informativos. Estas sociedades – que em alguns casos, como o português, são substituídas pela própria associação sindical do sector – ocupam o lugar das «Ordens» que autorizam e regulam o exercício de certas profissões liberais: médicos, advogados engenheiros conhecem esta mesma figura institucional que, de modo mais ou menos autoritário, legitima a intervenção profissional.

Duas metáforas podem representar o conjunto dos constrangimentos livremente assumidos que nos ocupam: a primeira é constituída pelo trabalho contínuo de redução de conteúdos a que são sujeitos os originais fotográficos para efeito de publicação que «fogem» à leitura simplificadora do real a noticiar – esse persistente trabalho de censura do significante fotográfico a que Barthes se referiu designando-o por procura do efeito unário – é solidária do movimento de escrita que descrevemos, como se obedecesse ao mesmo código e satisfizesse as mesmas «necessidades».

A segunda pode ser expressa pelo apagamento do sujeito enunciador na narrativa noticiosa. O jornalista dificilmente se autoriza a referir-se a si próprio na primeira pessoa do singular. A tradição e a norma obrigam-no ao pronome reflexo (pensa-se que), capaz de reduzir o efeito de subjectividade da observação. O observador suposto informar objectivamente e de acordo com critérios validamente universais é convidado a desaparecer da cena, muito embora a esmagadora maioria das suas observações esteja efectivamente marcada pela subjectividade individual e pela subjectividade de grupo, ou de casta… Ele deve mimar a posição do observador «científico», obrigado a produzir descrições do real que poderiam ser repetidas por uma série de observadores outros, desde que a realidade e as condições da observação pudessem também repetir-se.

A autoridade do sistema de legitimação do discurso jornalístico e o conjunto de normas empíricas que condicionam a economia das narrativas noticiosas está hoje longe de ser posta em causa. No caso português, a sua hegemonia atravessa mesmo uma fase de expansão, dada a especificidade da situação dos nossos meios de comunicação: a questão (herdada da intervenção da banca na estrutura da propriedade das empresas jornalísticas) da coexistência de um sector público ou intervencionado e de um sector privado na Informação levou, num quadro geral de recessão económica e de bloqueamento, à preponderância dos modelos dircursivos que se autolegitimam como «serviço público» e que necessitam por isso de invocar a seu favor a obediência à panóplia de normas que, no Estado democrático, rege formalmente a informação… estatal.

E, no entanto, a Imprensa muda.

Um segundo momento desta reflexão visa explicitar alguns dos mecanismos que regem a mudança na Imprensa, tendo sobretudo em consideração o caso português.

Tentarei esboçar o perfil das duas ordens de factores que pressionam a Imprensa no sentido da mudança – mudança de conteúdos, mudança de linguagem, mudança, igualmente, de objectivos de comunicação. Trata-se, por um lado de compreender a força e a lógica dos factos exógenos (pressões financeiras, mudança de grau de dependência em relação à liderança de opinião, mutações qualitativas importantes do público leitor, nomeadamente as provocados pela incapacidade de a Imprensa reabsorver os efeitos negativos da inflação sobre o consumo e/ou pela alteração dos quadros etários dominantes nesse mesmo público). E, por outro, de tentar compreender se existem factores endógenos (eventualmente provocados pela interiorização dos efeitos dos primeiros por parte dos agentes da informação).

Vale a pena invocar, no quadro desta reflexão, a experiência americana do «New Journalism» e dos «alternative media», narrada por Robert D. Murphy no seu Mass Communication and Human Interaction:

«In the 1960’s and 1970’s a small band of skilled writers began combining the techniques of the journalism and the novelist. During the same period some larger cities saw the establishment of publications designed to report situations that were ignored by the regular media and to present viewpoints that had heretofore been largely left unvoiced».

«The new journalism and alternative media were largely separated developments, although they occurred at about the same time. The general effect of the two movements was the start of a re-examination of the techniques of writing for journalism, and at the same time a questioning of the standards by which information is judged to be newsworthy».

De um forma genérica, poderia afirmar-se que ambas as experiências testemunham a emergência, no campo dos media, de determinadas expressões do idealismo racional, ou do utopismo poético, que floresceram no período em referência, adquirindo com frequência a forma de um discurso de intervenção social ou política baseado na critica do quotidiano. Este movimento, que se estendeu à Europa no limiar da década de 70, significa a implosão, no campo dos media, do regime tradicional da rarefacção dos sujeitos da enunciação. Uma imprensa de bairro, de classe, de zona, uma imprensa «marginal», contestando as formas do poder político, ou desinteressando-se militantemente dele, ameaça substituir parcialmente os «megajornais» produtores de uma informação obediente aos critérios universais da objectividade feita em nome do interesse geral. Ao mesmo tempo multiplicam-se as publicações para públicos específicos, a sociedade do espectáculo rivaliza com o espectáculo do político. As experiências não se limitam ao campo da Imprensa: é a época dos vídeos ligeiros consideradas como formas de animação de comunidades ou de regiões.

Illitch e o grupo de Cuernavaca hegemonizam a mise en question de discursos e de práticas fundadoras de modelos de sociedade, e as faculdades de ciências humanas são atravessadas, nos E.U.A. como na Europa, por uma crise epistemológica que reveste sobretudo o aspecto de uma crise de fundamentos e objectivos da investigação. Não nos demoraremos, aqui, sobre estes aspectos.

E também não esboçaremos, aqui, a exegese ou a hermenêutica destas experiências geralmente classificadas de «marginais», que fizeram a sua época e de que restam, aqui e ali, reminiscências. No presente quadro de reflexão interessa-nos, sim, verificar que algumas delas acabaram por ser reincorporadas como componentes simples dos media convencionais. Assim, se a década dos vídeos ligeiros deu lugar à explosão das TVs privadas, das TVs locais, das TVs por cabo e talvez sobretudo, ao novo mercado das videocassetes, na rádio a proliferação das emissoras «locais» ou «piratas» está, ainda hoje a dar lugar à série de reajustamentos legislativos necessários à legitimação formal dos «pequenos» direitos de antena. Trata-se de situações que produzem ritmos de resolução diversificados, mas que, globalmente consideradas, apontam tendencialmente para um futuro de moderação do monopólio estatal de emissão, que constituiu o modelo dominante durante três décadas na Europa, à saída da segunda Grande Guerra.

Na Imprensa, o que Murphy designa por New Journalism é sobretudo o sintoma de uma crise de identidade do discurso jornalístico. Como se, com a progressiva quebra de vendas dos «jornais de grande expansão» (fruto, em primeiro lugar sem dúvida, da concorrência directa da televisão), o conjunto de regras, códigos e normas gerais a que fizemos referência tivessem, momentaneamente, sido postos em causa por dentro. E curioso constatar que, face à potenciação, pelo «novo» discurso televisivo, das características depuradas da narrativa noticiosa do «antigo jornalismo», a Imprensa tenha sentido necessidade de regressar a um convívio mais íntimo com a «literatura» – a ideológica e a de ficção.

De facto, a Imprensa responde à concorrência que lhe é movida pela televisão com um movimento a favor do reforço da opinião nos jornais (não é raro que o Leitmotiv de tal campanha seja a identidade de significações liberdade de imprensa/liberdade de Opinião), e com uma procura deliberada de novas dramatizações da narrativa noticiosa: os acontecimentos passam a ser noticiados em regime de maior abertura à subjectividade do observador, o texto jornalístico reaparece frequentemente como texto de autor e o conjunto dos factos noticiáveis passa a constituir elemento de intriga de novelas jornalísticas.

Esta larga rotação de retórica clássica do discurso na imprensa manifesta o desejo de uma estratégia de defesa e apresenta duas modalidades de base: trata-se, nuns casos, de reforçar a autonomia e a identidade das duas componentes vitais do jornal: o «staff editorialista» e o «staff noticioso»; noutros, assiste-se pelo contrário a uma tendência para a editorialização da notícia, que testemunha o regresso a um velho «jornalismo de combate», ou a um velho «jornalismo de opinião». Este último modelo é o mais refractário à abertura do espaço do jornal às opiniões alheias, e corresponde facilmente a uma sobrestimação da importância que a experiência jornalística a si própria se atribui, no cenário social para que fala. O primeiro modelo é o mais «aberto» ao peso e importância do exterior: em alguns casos ele aposta na expansão dos espaços tipo correio do leitor, e admite conversões parciais do «papel da Imprensa» a caminho de uma valorização da função tipo ombudsman.

Um exemplo de New Journalism no caso português é o modo de narrativa noticiosa que passou a dominante em alguns dos jornais semanários. O «Expresso» e «O Jornal», designadamente, exprime a tendência para a novela jornalística acima descrita. Por vezes, esta tendência é simbolicamente ampliada pelo convite permanente a autores de ficção que ocupam, no jornal, um espaço dedicado ao utopismo poético como forma positiva de comentário do real. Este «regresso da literatura» – que «mina» o regresso de algo recalcado pelo discurso jornalístico clássico – é solidário da consagração mitológica de autores cujo discurso operou a simbiose do jornalismo e da ficção (casos de Gabriel Marquez e de William Burchett, por exemplo). Ele produz, também, uma nova simpatia do jornalista pelo comentário próximo do utopismo poético: o jornalista volta a escrever contos morais, novelas exemplares, fábulas e alegorias.

Este quadro de mudança não diz apenas respeito ao reexame das técnicas de escrita para jornais: ele estende-se também aos critérios de selecção do real noticiável, como sugere Murphy. Assiste-se, assim, a uma nova atenção pelo fait-divers, sobretudo inspirada pela mudança relativa do quadro geral de preocupações daquilo que no campo dos media se designa geralmente como opinião pública: o interesse cultural pelos fenómenos socialmente minoritários e os enfoques da realidade induzidos pelas preocupações ecológicas tornaram-se dois exemplos clássicos desse New Deal procurado pela Imprensa.

A Imprensa procura em primeiro lugar conservar os seus públicos tradicionais, o que justifica a resistência à mudança que os seus quadros editoriais dominantes testemunham. Mas contraditoriamente procura novos públicos, nomeadamente entre os grupos etários mais baixos, porque sente que o seu futuro depende da capacidade actual de fixar leitores jovens. A tensão entre estes dois pólos passou a marcar decisivamente tudo o que de experimental é induzido no discurso jornalístico escrito, e o caso português é dos que mais claramente manifestam esta situação, porque ele apresenta dramaticamente aspectos de perda global de público e de recessão nas condições de explorações das empresas jornalísticas que não fizeram senão acentuar-se nos últimos dez anos.

Caberá aqui uma referência a dois factores «exógenos» de pressão sobre a expenência recente da Imprensa portuguesa que determinam a quase totalidade dos aspectos que a caracterizam, sem que a mudança específica de discurso jornalístico lhe possa, de qualquer modo, responder:

Em primeiro lugar, pagando-o em divisas quando a moeda nacional não cessa de se desvalorizar, agravou de forma muito importante os reflexos dos custos gerais de produção.

Em segundo lugar, os preços excessivamente concorrenciais praticados para a publicidade na televisão do Estado (a única autorizada) produziu uma fuga global de receitas tradicionais da Imprensa.

A associação continuada destes dois factores, aliada a uma curiosíssima política de recapitalização, pelo Estado, das empresas de Comunicação Social dele dependentes, em detrimento de uma política de apoio financeiro global à comunicação social, vieram acentuar gravemente a sintomatologia da «crise» da Imprensa portuguesa. Estes factores condicionam o cenário no qual evoluem os objectos em análise nesta reflexão, sem que a dinâmica interna destes possa de algum modo intervir nesse cenário, para o modificar.

Os problemas de gestão assim criados à Imprensa portuguesa são múltiplos, e justificam uma atenção particular que foge aos limites do presente artigo. No entanto esse cenário é, hoje, um gerador permanente de alterações na estratégia discursiva da imprensa – e é nessa medida que é importante recordá-lo aqui porque:

  • Os jornais portugueses enfrentam, no seu conjunto, uma tendência geral para a diminuição da sua audiência, não devendo ser exagerado admitir que, entre 1963 e 1984, o volume global das vendas da Imprensa «de grande informação» diminuiu entre 30 e 40 por cento. Esta tendência faz descer mais ainda o tradicionalmente baixo índice de leitura de jornais em Portugal (a venda global dos diários portugueses ronda, hoje, os 350 mil exemplares);

  • Aliado à subida periódica dos preços de venda ao público dos jornais, o esforço actual de «racionalização» da sua distribuição nacional (provocado pelo encarecimento dos combustíveis) privilegia as faixas de implantação tradicionais, constituídas pelo litoral e pelas faixas de maiores concentrações urbanas, em detrimento do mundo rural e do interior no seu conjunto.

E neste cenário regressivo que as aventuras jornalísticas subsistentes procuram expandir-se entre o público jovem, e multiplicar as motivações de leitura.

Na verdade, assiste-se nos nossos dias a um bloqueamento geral da iniciativa jornalística e a brutais movimentos de adaptação por parte das empresas e jornais que partilham o mercado em recessão. A multiplicidade dos constrangimentos torna-se mais aguda, neste quadro, para os produtores de informação, que manifestam, contraditoriamente com a necessidade de procurar públicos jovens, um «terror do novo», uma vontade persistente de não arriscar a fuga aos padrões jornalísticos que lhes garantem a conservação do «velho» público leitor.

Eis, em boa parte, o que explica o facto de não terem sido tentadas, entre nós, nos últimos anos, experiências de implantação de novos jornais capazes de «romper o cerco» e de liderar um movimento renovador mais aberto à necessidade de reestruturar o discurso jornalístico no seu conjunto, em termos de linguagem, de temáticas e a sua abordagem, e propriamente quanto aos objectivos da Informação.

Às censuras transportadas na inércia da experiência dominante, acrescenta-se de momento, com peso crescente, a soma de censuras decorrentes da recessão do sector. Na impresa portuguesa está a instalar-se, a quinze anos do fim do século, um verdadeiro «terror milenarista» que bloqueia a mudança, ou melhor, que obriga a mudança a não percorrer de novo senão os lastimáveis atalhos que novos caminhos já tinham permitido abandonar.

A investigação que parte de uma descrição pormenorizada da situação aqui esboçada, e que vise desembocar na acção (criação de cenários alternativos aos actuais modelos de gestão, criação de condições para que o discurso jornalístico não estagne, em Portugal, em resultado do medo de gerir a mudança), pode ter um papel importante a desempenhar na modificação do cenário que chamei suicidário.

«Acabar com todas as censuras» parece ser um objectivo destinado a extinguir-se na enunciação do próprio slogan. Hospedar apenas as censuras consensualmente admitidas como funcionais é, porventura, um objectivo realista… e necessário, desde que elas sejam como tal assumidas pelos próprios agentes do discurso jornalístico, que devem poder gerir a mudança dos códigos que definem o campo em que trabalham.