26 de novembro / ESTÓRIAS: PORTUGAL_ÁFRICAS / Biblioteca FCT (Campus UNL - Caparica)

Transporte gratuito com saida a 26-11-16, às 13h30, da FCSH (Av. de Berna, 26 C) - e regresso a Lisboa.
Entrada Livre. Certificado de Presença.

Programa completo e Resumos

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Uma iniciativa inserida no projecto estórias: portugal _ áfricas | imagens & narrativas

 

Programa

14H00 (Auditório)

PERSPECTIVAS PÓS-COLONIAIS: CULTURA E NARRATIVAS

Maria Augusta Babo
A narrativa pelo ponto de vista do narrador

Elsa Lechner
Relatos de experiência de migrantes entre Portugal e Africa: as narrativas biográficas como contraponto e compasso de imaginários coletivos luso-africanos

Júlia Garraio
«MEMOIRS - Filhos de Império e Pós-Memórias Europeias»

Rosa Cabecinhas
Migrações e narrativas (pós)-coloniais

 

15H30(Auditório)
IMAGINÁRIOS COLONIAIS E PÓS-COLONIAIS

Carolin Overhoff Ferreira
Revisitando o nascimento do cinema em Moçambique - Kuxa Kanema de Margarida Cardoso

Teresa Mendes Flores
Os álbuns “africanos” do meu pai;: os álbuns fotográficos e a construção de imaginários intra-geracionais

Cláudia Madeira
A peça “Canto do Papão Lusitano” de Peter Weiss - um documento histórico sobre o colonialismo português

 

17H00 (Auditório)
ARTES, CULTURA E MEDIA

Conversa com os artistas e curadora:
António Olaio | Raquel Melgue | Mónica de Miranda | Vasco Araújo | Ana Rito (curadora)
Moderação: Maria Teresa Cruz

Resumos

PERSPECTIVAS PÓS-COLONIAIS: CULTURA E NARRATIVAS

 

A narrativa pelo ponto de vista do narrador

Maria Augusta Babo (CECL/CIC.Digital – FCSH/UNL)

Trata-se de entender como a história enquanto narrativa elabora sempre um ponto de vista: o do narrador por onde perpassam os imaginários e as memórias.

 

Relatos de experiência de migrantes entre Portugal e Africa: as narrativas biográficas como contraponto e compasso de imaginários coletivos luso-africanos

Elsa Lechner (CES, UC)

Esta comunicação apresenta um trabalho biográfico desenvolvido com imigrantes em Portugal num formato colaborativo que potenciou a negociação de sentidos das imagens e discursos dominantes sobre os imigrantes em Portugal.

Centraremos a nossa atenção em duas histórias de vida, a de Lucy (48 anos) vinda de Angola em 1993, e a de Arsénio (60 anos), chegado de Cabo Verde em 1973. Através da análise de excertos de narrativas que ambos produziram numa oficina biográfica penetraremos mais profundamente nos arquivos pessoas da história da relação entre estes dois países e Portugal, encontrando/reinterpretando/construindo os sentidos das experiencias de vida relatadas, aquém e além dos imaginários luso-africanos. Tanto o tema da imigração em Portugal (e subtemas), como as representações das identidades dos participantes da oficina foram “trabalhados por dentro” através das narrativas biográficas. Estas também potenciam um conhecimento e compreensão das experiencias biográficas em diálogo, ou seja, num jogo não de espelhos culturais de partida, mas de reinvenção das pertenças e das identidades no encontro com o Outro.

No contraponto da reiteração de imagens e narrativas pré-fabricadas, os relatos de experiencia aqui analisados, permitem sublinhar também a possível aprendizagem mútua, o respeito da/na diversidade, e diálogo plural propiciados pela pesquisa biográfica. E partilhando experiências de vida que entrosam Portugal e África nos contextos coloniais e pós-coloniais, estes relatos e estas vidas também são expressão concreta de vivências e memórias da História contemporânea que questionam um certo imaginário coletivo sobre Portugal, África e suas ligações.

 

«MEMOIRS - Filhos de Império e Pós-Memórias Europeias»

Júlia Garraio (CES – UC)

Em novembro de 2015, teve início, no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, o projeto de investigação MEMOIRS – Filhos de Império e Pós-Memórias Europeias, dirigido por Margarida Calafate Ribeiro, e financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC – Consolidator Grant nº 648624). Trata-se de um projeto de investigação sobre a diversidade da Europa contemporânea, que, através dos casos de Portugal, França e Bélgica, se debruça sobre o impacto das memórias coloniais e dos processos de descolonização e independências das ex-colónias africanas destes países nas gerações que “vieram a seguir”. É um trabalho sobre as pós-memórias daqueles que cresceram e vivem em Portugal, França e Bélgica, não conheceram ou têm memórias difusas de infância dos últimos anos do domínio colonial na RDC, Argélia, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe e respetivas descolonizações, mas que, quer através das histórias das suas famílias, quer através do contexto em que cresceram, foram marcados e influenciados por esses processos históricos. O estudo tem dois grandes campos de análise: produções artísticas e entrevistas a descendentes das gerações que viveram o fim do período colonial.

Esta comunicação pretende dar a conhecer o projeto em curso. Será referida alguma da investigação anterior da investigadora principal sobre o contexto português, que conduziu ao presente estudo comparativa, bem como o contexto que justifica a pertinência de um trabalho comparativo. Posteriormente serão apresentados os objetivos do estudo e os seus principais campos de análise.

 

Migrações e narrativas (pós)-coloniais

Rosa Cabecinhas

 

 

IMAGINÁRIOS COLONIAIS E PÓS-COLONIAIS

 

Revisitando o nascimento do cinema em Moçambique - Kuxa Kanema de Margarida Cardoso   

Carolin Overhoff Ferreira (UNIFESP)

O paper abordará o filme Kuxa Kanema de Margarida Cardoso sob a perspectiva de sua eficácia pedagógica ou estética, conceitos de Jacques Rancière, para discutir como o filme realiza uma revisão do início da prática audio-visual em Moçambique. A vontade de fazer um cinema de e para o povo desdobrou-se em 395 cinejornais cujas filmagens são mostradas e avaliadas pelos envolvidos e pelas escolhas da cineasta. O meu objetivo será compreender qual a eficácia do filme de Cardoso, sendo que se trata da construção de um imaginário de um ponto de vista português que re-visita o sonho da criação de um imaginário próprio africano.

 

Os álbuns “africanos” do meu pai : os álbuns fotográficos e a construção de imaginários intra-geracionais

Teresa Mendes Flores

Esta comunicação propõe-se refletir sobre o papel desempenhado pela fotografia privada e pela sua reunião em álbuns na constituição de uma memória, pessoal, familiar e coletiva, de África. Uma África vista de um ponto de vista: a dos colonizadores. Para tal recorro a um caso pessoal: o álbum da minha família relativo às comissões de guerra que o meu pai, então jovem sargento, fez em Moçambique entre 1965 e 1969. Nas suas fotografias a guerra está ausente. Apenas vemos a vida de quartel, os passeios nas praias ou as caçadas com amigos. É evidente que em pleno campo de batalha não se poderia fotografar e que a fotografia privada e de família é apenas possível em lugares e momentos de (relativa) paz. Por outro lado, mesmo que fosse possível a um militar fotografar os combates, isso seria muito provavelmente uma atividade que não lhe ocorreria, já que a fotografia privada permanece associada ao registo de momentos felizes, ou como refere Pierre Bourdieu, a “uma reiteração técnica das festividades”. Durante muito tempo, até ao fim da minha adolescência, nunca me ocorreu, ao folhear este álbum, de que a guerra existira. Para mim, era como se aquelas imagens mostrassem tempos idílicos de férias permanentes. Hoje, penso que essa ausência é muito significativa. Estas fotografias foram, para mim também, a única África de que me lembro, esse lugar distante que me diziam ser “a minha terra” : uma África que não é nem verdadeira nem falsa, mas um bocadinho as duas coisas. Isso é importante porque nos demonstra, igualmente, o estatuto ontológico da fotografia, que orientará a minha abordagem deste objeto.

 

A peça “Canto do Papão Lusitano” de Peter Weiss - um documento histórico sobre o colonialismo português

Cláudia Madeira (DCC, FCSH-UNL)

Na actualidade são vários os artistas-investigadores portugueses que, em todas as áreas artísticas, nomeadamente no Teatro, têm vindo a trabalhar as memórias (pós)coloniais, quer de forma sistémica, analisando a rede complexa de temas que lhe são inerentes, tais como, a Ditadura, a Revolução, os movimentos de libertação, a Guerra colonial, o (pós)colonialismo, o Retorno, etc., quer procurando dedicar-se mais especicamente a um desses temas. Este processo que começou a ampliar-se e a ganhar maior visibilidade com a aproximação dos quarenta anos após a revolução de Abril de 1974 e fim do Império, parece contrastar com a afirmada falta de inscrição que diversos outros projectos artísticos emergentes no processo revolucionário e pós-revolucionário tiveram na sociedade portuguesa. Não há uma verdadeira singularidade portuguesa nesse processo, já que os estudos da pós-memória, em diversos países europeus, mostram esses mesmos silenciamentos, em relação a acontecimentos traumáticos nacionais (Madeira 2015), contudo, é legítimo problematizar: que processos de transmissão e silenciamento efectivamente se verificaram, assim como questionar como se podem reapresentar alguns desses projectos na nossa sociedade actual. A partir deste enquadramento teórico analisarei, nesta comunicação, a peça Canto do Papão Lusitano, de Peter Weiss, estreada em 1967 no Scala-Teatern, em Estocolmo, a partir da possibilidade de ele constituir o mais importante documento histórico teatral que foi contemporâneo à ditadura portuguesa e que, posteriormente ao processo revolucionário, parece ter caído no esquecimento. Apresentarei ainda algumas questões que se me têm colocado na sua adaptação teatral para o palco hoje, num processo que iniciei com os meus alunos e com o encenador Carlos Pessoa e o Teatro da Garagem.

 

ARTES, CULTURA E MEDIA
Conversa com os artistas e curadora:

António Olaio | Raquel Melgue | Mónica de Miranda | Vasco Araújo | Ana Rito (curadora)
Moderação: Maria Teresa Cruz

Esta conversa abordará o projeto curatorial e as propostas dos artistas participantes no ESTÓRIAS: PORTUGAL_ÁFRICAS, na sua ligação com os temas abordados por este projeto e com a noção de investigação artística. Em causa estarão também as relações da investigação artística com os arquivos, a memória e as suas várias mediações; a sua importância para o aprofundamento da memória, mas também para a reinvenção da experiência presente.