Reconhecimento e alteridade

Por Maria Lucília Marcos

O princípio da relação, sendo instituinte da subjectividade, da autonomia e da identidade e sendo ainda condição de possibilidade da comunicação, alimenta-se tensionalmente de termos que se mantêm exteriores um ao outro, apesar de intrinsecamente relacionados. Deste modo, a ideia de “comunidade” deve ser pensada a partir deste pressuposto, de modo a não ser entendida como um a priori, ou seja, como algo dado e previamente garantido. Convém não absolutizar a autonomia do sujeito nem absolutizar a pre-potência de uma comunidade gerada “clandestinamente”, convertida em “petição de princípio”.

Para fugir à opressão do todo, é necessário procurar um “para-lá da totalidade”, um excesso que se reflecte no interior da totalidade e da história, em presença do rosto do outro. Em Lévinas, o encontro é separação, a relação é relação de interrupção, é, poder-se-ia também dizer, “relação de excepção”, é também a “forma-limite da relação”. Porque interrompe o que está. O acolhimento (o reconhecimento e a hospitalidade) do outro é abertura ao imprevisível, ao enigmático. Por isso, é sempre violento, traumático. Nas situações frequentes de violência do eu sobre o outro, haverá sempre um resto inapropriável que ficará infinitamente outro. Nas situações de guerra actual, percebe-se esse resto em cada rosto do outro – na dor visível há o apelo “não matarás” e, mesmo na morte efectiva, há um resto que escapa como irredutivelmente outro e que questionará para sempre o poder do eu.

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