Bio-Escrita: a alteridade nos limites da transindividuação

Por Luis Lima

O tempo e o Outro é a obra de Emmanuel Lévinas que está em jogo para a defesa de uma tese onde o conceito de «hipóstase» formulado pelo autor pode ser resgatado à luz de uma bio-escrita. É na busca de um tempo de certo modo perdido e posteriormente reencontrado por um outro, por um ser liberto, na alteridade, das amarras da identidade e dos seus ditames ancorados na permanência do mesmo, que surge esta bio-escrita contra uma assinatura imutável de uma vida condenada à libertação no infinito, na morte.

Emmanuel Levinas progrediu, em O Tempo e o Outro, na constituição de um princípio de trans-individuação sem afirmar que se tratava de um Tempo, obrigatoriamente por Outro, Reencontrado. Se na sua busca do tempo que vai do próprio ao outro Lévinas tivesse abraçado o seu compatriota judeu Marcel Proust, teria na bio-escrita a chave para arrancar não o Ser das rédeas do «há», mas antes fazer do «há» uma imanência ao Ser, abraçando assim uma alteridade multiplamente infinita, que é aquilo que mais ambiciona neste texto.

A bio-escrita que se adivinha neste livro de Lévinas, com a própria continuidade do Ser por via da procriação no tempo, pode ser a chave para revelar aquilo que Lévinas procurava: um conceito que designasse a evasão do ser embargado nos seus limites identitários rumo a um ser em processo de individuação, de transindividuação – aqui designado por alterirade – que poderá ser substituído pelo conceito «ecceidade». É isto que a bio-escrita propõe, uma vez que se trata de uma vida que unicamente escreve com palavras que, não sendo suas, constituem o seu plano de imanência.

Em que consiste o termo ecceidade na sua confrontação com a hipóstase para a construção de uma bioescrita? É o que defenderemos através da apresentação de um conjunto de textos cruzado, trans-individuados, para a formação de um plano de consistência de um Ser que se inscreve na trans-individuação por via de uma aleteridade múltipla.

Nota: A bio-escrita é aqui entendida como a escrita de uma vida, uma ontografia, de carácter imanente, no sentido em que é uma expressão do ser. Ora um ser liberto da sua mesmidade, um ser que se expressa enquanto vive, é um texto vivo – distinguindo-se de uma biografia, que é um texto inerte, uma sub-fase, um substracto, uma substância, uma hipóstase.

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