
Conferência Internacional
Imagem e Pensamento
Problema
Afirma um antigo ditado que uma imagem vale mais que mil palavras. Eis o sinal de um conflito, que vem de longe. De facto, para a metafísica platónica todas as imagens eram vãs e falsas, nada valendo contra os conceitos, enunciáveis apenas pelo logos.
Desde o século XIX que a relação entre imagem e texto, se tornou amplamente problemática. A cultura do livro, e também a cultura católica, havia-a controlado rigidamente. As imagens tinham que ser autorizadas para poderem aparecer. É certo que o catolicismo sempre pressentiu nelas um perigo, sendo as imagens a matéria da «tentação». Todavia, com as tecnologias ópticas, como a fotografia e o cinema, depois o vídeo e as imagens digitais, a imagem parece autonomizar-se, ganhar peso, escapar finalmente à infinita ekphrasis que a linguagem desenvolve.
Este dito popular sobre a relação entre as imagens e as palavras, aparentemente convincente, convoca a crença estonteante no poder mostrador das imagens. Compõe também toda uma ideologia que tem organizado, na cultura ocidental, as relações entre umas e outras. Ao mesmo tempo que atribui à imagem um estatuto de encantamento sedutor (as imagens recebem-se sem esforço, são rápidas, directas, gulosas), este aforismo culpabiliza a palavra por ser trabalhosa, tortuosa, pesada, dolorosa. Além disso, parece querer afirmar, sem contestação, que a imagem é a solução da palavra. As imagens conseguem realizar sem esforço o que as palavras buscam sem que o alcancem, tornando-se por isso um peso para os indivíduos.
O que é certo é que esta ideologia que envolve as imagens – a ideia de que elas não precisam de ser trabalhadas, que se impõem por si próprias – lhes foi criando uma via autónoma de produção no Ocidente raramente penetrada pelo pensamento e pelas palavras. Para criar uma imagem basta uma máquina, como antes bastava a natureza que as produz profusamente. Agora a imagem é forte porque produzida sem intervenção humana, limpa, pura, virgem de metafísicas.
Aparentemente a imagem superou o pensamento, já não necessitando dele. Resultado paradoxal, se repararmos que a filosofia ocidental, a de Platão, por exemplo, começa justamente por um conflito com as imagens, que reduz através/com as ideias eternas, instaurando o caminho do «conceito», de que a técnica digital é a culminação. No momento terminal deste processo, a relação entre imagem, palavra e texto tornou-se quase num enigma sobre o qual se deve lançar alguma luz, a possível. O que passará, talvez, por reescutar a frase de Giordano Bruno que diz sibilinamente que «Pensar é especular com imagens».